sexta-feira, 1 de agosto de 2008

meta-AMOR-foses

Manda-me de volta todos os beijos que não demos na hora da despedida que nunca existiu. Manda-me um só momento que sirva para resumir todos os instantes provisoriamente eternos, devolve-me a metade de ti que me pertence, a peça do puzzle que inventei para me entreter enquanto exploro os meus excessos à flor da pele, enquanto culpado me confesso do silêncio audível no interior da tua boca.

Poema?
Devolve os sorrisos que não partilhei com os teus lábios. Reaparece, grita-me a tua ousadia, cospe-me no rosto e no resto que sobra de mim, vomita os fantasmas que coloquei nos teus sonhos, arranca de mim os filhos que não me deste, morde, trinca, beija este corpo com bofetadas. Isto é amor. E se não for, então que se lixe!!

Que se lixem as rosas que não te ofereci, que se lixem as lágrimas que bebi do teu olhar, que se lixem as recordações na reciclagem da memória, que se lixe o vazio que escrevo, que se lixem os instantes provisórios, os beijos, a despedida, o puzzle e eu. Mas, por agora... imploro-te...
Apaga no coração as mil vezes que te matei sem te avisar e as vezes mil que não te amei e escrevemos utopias eternas nos lençóis!!
Poema?

Rasga-me os sentimentos que já não sinto, as pétalas, os ramos, o pólen, as raízes, deita fora todas as emoções que já não penso e guarda os espinhos para te acariciarem a epiderme e dorme sem que a tua boca cuspa uma lágrima, enfurece-te carinhosamente, corta em fatias essa overdose de esquecimento, anestesia o meu choro com beijinhos mesmo que não sentidos.

Poema?
Engana-me na única verdade que é acabar e regressar ao pó e quando estiver deitado, grita-me que não morri!!
Poisa em mim como uma tempestade de orgasmos organizados por desordem alfabética. Empresta-me o tempo que não tive para te dizer o quanto demorei para encontrar o ponto onde começa e termina a eternidade que se encerra numa hora onde não cabem sessenta minutos de realidade. Uma hora onde não cabe nada que não seja sublime como a tua doentia solidão enterrada no solo árido deste fragmento poético quase tão ofensivo e obsceno como o dono dele.
Meu poema... meu amor...
Empresta-me um sonho que não seja meu, uma mentira pequenina para me aliviar a espera. Uma mentira, dessas que não magoa mesmo quando se tratam de verdades violentamente incuráveis como uma despedida para sempre. Para sempre e por hoje, empresta-me um alfabeto diferente. Cansei-me de dar nas vistas sempre com os mesmos disparates. Cansei-me de ti que ingenuamente apenas serves para me fazer sorrir de nervos, tão assim, mais ou menos isto ou tão míope, que só visto. Tão ausente, tão desatento, tão alheio, tão filho da mãe como a vida, às vezes. É!!

A morte é a incurável certeza que nos mantém vivos!!

Se alguém duvidar, então ressuscitem-me deste sono, atirem a primeira, a segunda e a terceira pedra e deixem-me descansar na sétima noite da minha ausência para que no final possas perceber que é tarde para me proibires de sonhar...

E isto será sempre amor! Mesmo que as palavras doam, será, mesmo que não seja nada. Será, mesmo que pareça um desmaio voluntário, um recém-nascido à espera de um espancamento fraternal que lhe desperte o primeiro choro. Isto será sempre amor, uma teimosia tragicamente razoável que excede as utopias que deambulam à volta da tua imperturbável apatia. Será o que tiver que ser portanto, empresta-me uma catástrofe de miminhos, o desastre afectivo das tuas quimeras, devolve-me o alicate, o serrote, os martelos, as enxadas, a guilhotina e, já agora, os bisturis, preciso de uma cirurgia emocional, que arranquem de mim o teu suor e me deixem ficar apenas a esperança e o lapso de ser imaturo porque de real só me resta a discreta verdade da fantasia.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Poeticoterapia

Antes de folhear as flores pintadas de fresco. Arrumei os sentimentos no seu de vidro lugar para não quebrar mais nada. Mandei chamar os curandeiros da loucura para te ressuscitarem pelo menos na minha memória. Depois. Vasculhei o passado em busca do futuro sem temer a sobrevivência do presente. Remendei o coração com as linhas de um caminho-de-ferro. Desenrolei as pétalas substituindo-as por pérolas. Fiz-me vagabundo à lareira dos sonhos ao relento.

Depois. Muito além de nós dois. Descaradamente e sem asas nas algemas.

Cruzo-me comigo por mero engano nos intervalos do sono. Deambulo pelo quarto com uma caneta na mão pronta a disparar. Descarrego um poema apenas da boca para fora. A dor meço aos palmos como se fosse possível medir e calcular com a mão o comprimento exacto do teu odor. Meço cada centímetro do teu sentimento como quem se espanta por morrer pela primeira vez sem tempo para escrever a última prosa feita a base de extractos de poesia. Com alguns restos de nada e um pouco de pânico. Depois. Escrevo e escavo a terra. Atiro-me flores lá para baixo. Adormeço. Adormecendo a dor que não vem escrita no teu caderno de contos de fadas. Agora não me venhas dizer que é triste desejar loucamente manter os olhos escancarados à vida nem que seja à força.

Atreve-te a admirar o último raio de sol. A humildade nos gestos. A humidade nos olhos. Sim. Não vou ler o teu olhar. Também eu sou uma ponte a construir. Sobre a água. Ofende-me com os teus elogios. Também eu sou um analfabeto assumidamente em constante denúncia de mim. Impudicamente. Doente de esquecimento e infinito e esperança e carinho e de ti. E não de objectos como objectivos. O meu objectivo é o Ser. Ser inconquistável como um escândalo de sonho. Imperceptível como os ritmos quentes que fervem e remexem as ancas do mundo. E se quiseres despedir os meus murmúrios. Despe-te à vontade. Despede-te de tudo. Despe tudo e todos que o teu despeito levou. Despe-te de mim. Despede-te com aplausos. Depois... Tira tudo. Menos o coração. Vai. Vai-te em qualquer lugar nem que seja embora.

A tua doença é ter um abismo na alma perigosamente intransponível!!

Mas, antes de me desmascarares a flor pétala a pétala. Cura-me com o teu veneno. Não tenho vacina para nada!

Também eu sou um analfabeto da verdade que procuro.

Desconexos

Para quê complicar a essência do que é essencial para fazer um comentário?

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Subdoxos

A vida a dois é o formidável suplício que os solitários procuram!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Subterrâneo

A ver vamos se ainda és capaz de desabotoar o meu corpo ao meio e devorar cada guloseima sem vergonha na boca. Não sentir nem de mais nem de menos. Ser de uma ponta à outra um monte de sonhos por resolver. Nem mais nem menos. Certeiro na medida incerta do futuro. Cem vezes as que nada sentiste. Cem poemas desinibidos sem rimas nem versos. Cem flores. Uma a uma. Caindo do céu até ao centro do teu arquipélago subterrâneo. Uma a uma. Sem tirar nem pôr. Sem atropelar as estrelas nem marcar o lugar do fim porque no fim e ao cabo tudo acaba. Até os pormenores por maiores que sejam os saltos altos da vida e os outros que usas nos pés. Sem vergonha na boca. Cuspir silêncios. Cuspir a alma torcida no peito. Fugir pelos atalhos e desfiladeiros do sonho à superfície dos sentidos. Fazer acontecer as palavras até ao limite dos gritos escritos em voz baixa por ainda serem incapazes de assumir as emoções quando esteticamente do avesso. A ver vamos se terás fôlego para me trazer inspiração boca a boca de olhos vendados. A ver vamos!! Rever as nossas imagens sem escrúpulos a gatafunhar e a borrar as folhas verdes que enfeitam a minha trincheira despovoada de ti mas com ilusões maduras. De carne e osso. Porque a vida é uma imagem com várias imagens. E nem todas nos dizem o que perdemos enquanto procuramos…

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Hipérbole

Apaguem as minhas impressões digitais no corpo desta idosa meretriz com a qual entretenho a insónia nas noites em que nego a aceitação de mais uma negação. Arranquem-me das mãos o papel e a caneta e as emoções e eu calar-me-ei. Prendam-me a língua e as cordas vocais e as veias e os lábios e os dentes para não trincar nem mais uma palavra. Assaltem-me a inocência. Prendam-me que não sei o que falo.
Nego...
Nego o teu castelo com arame farpado à volta das muralhas para que depois do arrepio mais ninguém se atreva a te fazer salivar dos olhos. Amarrem-me ao amor e soltem os vossos beijos e saltem e sintam como sou frágil como uma rocha pois cansei-me de te lançar disparates agora simplesmente pretendo disparar um beijo à distância tendo como alvo a tua boca. Falem-me que não sei o que prendo no coração que nego. Levem daqui o papel e a caneta que eu me calo. Calem-me as mãos e os dedos ainda assim vou gritar que não quero acabar aqui. Que não estou fora do prazo de validade para me amares aqui. Que aqui o olhar é negro quando o adeus marca a hora que nego.
Levem-me...
Prendam-me que não sei quem me ama. Beijem-me. Arranquem-me daqui. Nego quebrar outra vez o espelho em estilhaços mil de ternura. Chorem-me com gargalhadas de entusiasmo se me quiserem acordar. Chorem-me às escondidas. Entre quatro paredes. Quando mais ninguém existir ao teu redor além de ti e do teu travesseiro. Quando não mais precisares de sorrir apenas para fazer ginástica facial. Ressuscitem-me. Não tenho por quem esperar. Espero por mim. Ninguém vai bater à porta. Batam a porta em mim. Irei abrir mesmo sem nada para dar em troca ao silêncio. Deixem-me entrar ao menos para procurar o juízo que perdi nas reticências da tua loucura. Para te salvar dos lapsos da minha memória e do tal romance que atiramos pela janela connosco lá dentro trajados de amantes à paisana. Negro o teu semblante dinamitado com algodão doce. As palavras que lanço no fundo negro desta página. Nego a lâmpada fundida das mentiras de ontem visíveis na verdade de hoje.
Rápido...
Prendam-me que não sei quem amo. Prendam-me. Virei a página mas o livro é o mesmo. Mudei o amor mas não o lugar do coração. Prendam-me cá fora. Não quero acabar dentro sem engolir por fora a revelação do que fui. Tranquiliza-te mesmo que não compreendas por que razão deixei as minhas impressões digitais na tua língua. Ninguém vai bater à porta. Ninguém vai perguntar a data de nascimento da tua solidão. O número de identificação dos teus sonhos. A matrícula do teu passado. O nome completo do teu coração. O estado civil dos tendões do teu pensamento. Ninguém vai. Enquanto me entreter a fazer festinhas ao tempo à paulada. Porque o tempo que engoliste sem saborear as horas e os minutos e os segundos mais ninguém vai usá-lo. Nem para pano de limpar o chão.
Não nego que me levem... Mas...
Prendam-me que não sei quem me chama. Amarrem-me ao amor e soltem aplausos. Soltem cânticos de esperança. Da maresia das falésias. Dos murmúrios dos rios. Do aroma das frutas que desfrutas. Das florestas e bosques onde há pássaros soltos em voos de nunca mais voltar pois há febre nas palavras mas é liberdade este amarrar de vida com cordas vocais. Mesmo que não concordes comigo. É livre este amar de não saber.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Prazeres imperfeitos

Se pedir a verdade é pedir demais, ao menos, injecta-me um tranquilizante antes de abrires o coração. Espreme as minhas lágrimas até ao limite do teu sorriso e ainda que chores, não será demais, entornar uma luz no caminho onde tiveste a primeira convulsão fraternal com ligeiros ferimentos numa esquina qualquer da tua solidão.

Se pedir as estrelas é mendigar demais, ao menos, seduz-me com os teus dedos com feições de lâminas a escrever sobre a minha pele - Que nada mais temos em comum senão o facto de ambos sermos diferentes.

Depois… Apaga a luz!! Vou procurar no escuro o astro dos meus prazeres imperfeitos.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Não me importo de viver a ilusão desde que a realidade nela contida me traga um golpe mágico de felicidade enquanto durar a embriaguez.
Em que lado da alma a comichão é maior?
No homem que não tem sentido de humor ou na mulher que já não vê sentido nenhum no amor?

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Prefácio

Por um dia não me vou esmagar contra as metáforas. Despir-me diante de personificações e outras figuras do mesmo estilo. Hoje vou lamber a crosta da tua língua. Perseguir os vestígios e as pegadas da tua voz a declamar o absoluto num tom soprano. Sequestrar o hóspede que tens alojado no coração e substitui-lo por mim. Com um pouco de amor. Um pouco de nós. Vou exigir a eternidade com entrega ao domicílio! Com um pouco de noite. Um pouco de sonho. Descalçar-te a maquilhagem. Aleijar-me na sombra trémula sem arrefecer os teus sentimentos à luz de vela. Com um pouco de lágrima. Um pouco de nós dois. Refugiar-me no prefácio da tua timidez. Aceitar-te suja de embriaguez com nódoas cosméticas no rosto. Aceitar a finitude ininterrupta da vida como quem nega ter nas mãos uma raríssima pedra de alcatrão que não vale um minuto da nossa despedida. Daqui a pouco. Não sei! Por um pouco tão pouco não sei se sobrevivo ao perfume das flores que plantei debaixo da minha cama. Não sei. Desconheço os adjectivos com os quais qualificas o meu interior quando retiro a maquilhagem e me desconstruo cá dentro em palavras sem piruetas nem malabarismos fúteis. Não sei e nem quero! Por um dia não me vou amachucar como uma folha de papel. Uma folha talvez com mais um daqueles poemas exagerados com antídotos infecto-contagiosos. Sim! Inevitavelmente. As palavras são contagiosas. Infectam com o seu odor, a sua fragrância. Por um dia?! Só se tiver mais do que vinte quatro horas! Mais do que sorrisos postiços. Mais do que este amor paralelo em promoção no mercado negro. Mais do que o abismo do dia seguinte. Tão pouco…

Posfácio

Hoje, com um pouco de espanto vou sobreviver no presente do indicativo do teu futuro. Com um pouco de verdade. Um pouco de nós. Abrir-me à essência dos factos e afectos. Apanhar delicadamente um susto do tamanho do dia-a-dia com o desperta-dor matinal. Estoirar com a ampulheta que nos abrevia o tempo que nos resta. A teimosia que nos arrasta. Os restos de poesia que nos restam. Com um pouco de nós dois. Brotar. Germinar. Em flor. Na lista de espera à espera um do outro. Um do outro com um pouco de amor. Um pouco, mas, que seja!!
Que seja amor. Um caso à parte. Parte de êxtase. Parte de mim com um pouco de ti. Parte tudo o que quiseres! E parte. Vai! Busca no teu posfácio o instante de ser. Que sejas! Cócegas que me fazes com o olhar. Que sejas! Gaguejos que tento dizer com as mãos. E te sentem tocar. Mas sigo cego o caminho que a vida é. Com um pouco de audácia. Com um pouco de mim. Arranhas as noites e a almofada. Transferes a saudade para o outro lado da cama. Dás a língua à palmatória em nome dos beijos que não escreveste no meu rosto. Antes de adormecer tomas vitaminas para o silêncio que te afaga. Ao acordar tomas analgésicos para a solidão que te vai escoltar ao longo dos vários desencontros. Com um pouco de gente. Com um pouco de nós dois a cambalear firmes com passos desarrumados. Daqui a pouco estarás curada. Pronta para outro!
Só nos resta recolher do chão os zeros à esquerda da fervura que nos envolve. O que importa isso? És um algarismo à esquerda do amor? O que importa? Quando há tantos outros limites com tão pouco tempo de ilusão? Com um pouco de alma. Um pouco de nós. O poema germina. Seja qual for a semente que te entrar pela emoção adentro.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

quinta-feira, 22 de maio de 2008

quinta-feira, 15 de maio de 2008

360 graus de silêncio

Atrevimento para esculpir vocábulos delicados, atrevimento para pintar fábulas vertiginosas calcadas por uma sólida crença de esperar por mim, retalhos que mordem as linhas tortas incertas por verdades que só Deus me pode revelar, ilustrações polvilhadas com pólvora verbal, episódios poéticos ainda que imperfeitos e descartáveis como uma verdade que amanha será outra coisa, fábulas paridas de uma inspiração febril e desobediente, fulgurante e impaciente...
Enquanto espero...
Não me falte nunca atrevimento e ousadia para cuspir palavras ásperas e incorrigíveis. Não me falte nunca um farol para me manter bem acordado, bem ancorado na realidade. Que não me falte nunca um poema na linha da frente do meu combate. Não me falte nunca a tua ausência nem as partes íntimas de um pecado qualquer sem piri-piri. Nunca me faltem as noites em que empresto bocadinhos de mim ao exercício maternal de dar à luz 360 graus de silêncio.

Mesmo que um dia cometam o delito de chegar tarde ao meu enterro ainda me encontrarão em vida. Interminavelmente próspero!!

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Paradoxos

Acariciar-te a sangue frio sem lubrificar a minha língua, domesticar os teus gritos no crepúsculo em brasa no teu olhar, ser vegetariano e antropófago na ausência dos teus lábios,

Quem?

Detectar os pontos essenciais do teu corpo protegido com arame farpado, arrancar as raízes que te prendem ao olhar choramingas com o qual desfilas nas ruas, armadilhar as tuas ilusões com um sopro de ironia e algum erotismo gracioso,

Quem?

Ensaiar um sorriso diante do espelho, ensaiar uma declaração de amor, sair de casa esquecendo o sorriso no espelho e a declaração no interior das cordas vocais e, de repente, ter que improvisar o espontâneo diante da realidade feroz esplendidamente fértil,

Quem?

Semear um relâmpago nas nuvens, agarrá-las pelo colarinho, esbofeteá-las até ressuscitarem as lâmpadas fundidas do teu talento para reinventar um novo amor,

Sim, quem?

Hei-de descobrir o endereço dos teus segredos ilegítimos, hei-de largar esta abstinência de ti e deixar-me desviar pelo vício de te proibir a respiração com golpes de poesia, hei-de passear por ti em sentido inverso, distribuir-te o melhor papel na encenação, coagir-te com meiguices a representar que não estás a representar quando a tua boca deita fora um beijo em minha direcção, sepulta-me os destroços da minha sombra, corrige os traços oblíquos do meu rosto,

Quem?

Logo pela manhã, pentear-te o cabelo, os delírios, as lágrimas, a solidão, a voz hesitante, o corpo todo despenteado, o sono descabelado, o pijama enrugado, logo pela manhã, não ser vulgar, ser obsessivamente cúmplice das noites remuneradas com a tua carência afectiva, trair-te com outra, sim, seduzir uma outra fracção de eternidade, atrair-te ao folclore de palavras com alma, vazias por dentro, fragmentar o medo de te ouvires a ti própria, impedir que em mim se infiltre o teu suor, a metamorfose dos teus presságios de esperança e…

Quem?

Quem te vai relembrar a razão da tua vida quando não mais tiveres razões para recordar a tua memória? Quem irá preencher a textura do teu vazio trágico quando de ti o mundo ficar cheio? Quem irá dar sangue aos teus versos quando a inspiração te fugir do peito? Tirar fotocópias aos sonhos demitidos a meio do caminho, quem? Quem vai? Ler as palavras contraceptivas que fizeste desabar no útero dos poemas, ler-te sonetos quando tu desaprenderes a ler com as sensações, quem? Adivinhar as tuas mãos quando os teus dedos se fecharem, quem vai olhar por ti o mundo quando os teus olhos avistarem o deslumbramento absoluto, quem te vai amar e desamarrar dos paradoxos deste silêncio audível nas folhas em branco?
Quem?! Quem és?

terça-feira, 29 de abril de 2008

Loucos são os que possuem vocação para escapar ilesos ao sonho.

Mas. Guarda a tua apenas para ti!

domingo, 27 de abril de 2008

À margem

Tranquei a porta da cela. Aproximei-me da janela. Quis à força Abril os teus olhos com a chave das palavras...
Mas...
Nem sempre a liberdade está do lado de fora!

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Insónias

Atiro-me à queima roupa contra os cobertores. Os soníferos se recusam a me embalar o sono. A chuva continua a desmoronar-se em trapinhos de água doce sobre a minha cabeça. Temo acordar amanhã com os sentimentos constipados, mas, não tenho outra anestesia senão brincar às escondidas com a insónia. Tenho preguiça de morrer hoje. Tenho preguiça de ficar aqui deitado. À espera. Tenho preguiça de recuperar os poemas que encontrei sepultados na tua boca. Tenho-me de pé!! Sim, tenho-me na vertical. Fumo mais meia-dúzia de palavras às escuras. Espeto um prego em cada uma delas, mas, apenas e só, nas extremidades das sílabas tónicas. Chove. Cá dentro também. Corro para o exterior do quarto e adivinho um décimo do teu perfume nas fotos que ainda resistem ao gesto destemperado de te rasgar a ausência. Procuro os meus olhos no espelho. Recuo perante a tua omnipresença semi-nua. Refugio-me no interior de um envelope qualquer sem remetente e envio-me com destinatário desconhecido, publicamente anónimo.
Pois é, tenho o mau hábito de espiar as zonas quebradiças da tua alma e tu tens o mau hábito de me fazer regressar à vida quando os soníferos aceitam o embalo envolto na anestesia de água doce que a chuva faz cair sobre mim.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Retrospectivas