quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Versículos

Adormece-me para sempre. Acorda-me de vez em quando para respirar o perfume dos lírios. Segura com os dentes os pilares sísmicos das noites tatuadas com a seiva da insónia. Seduz-me a alma e a intuição. Senta-te no colo das nuvens. Ferve os aguaceiros que sobem pelo céu acima. Lambe uma palavra. Absoluta. Atravessa o teu travesseiro. Vomita os rascunhos dela. Afaga os insectos que dançam à volta da lâmpada enferrujada no telhado frágil sempre perto de desabar em cima das nossas utopias convulsivas. Estou longe de remendar os alicerces da nossa única casa. Comigo. Mas estou perto de atirar sonhos usados contra as portas da casa. Comigo. Longe de entornar os fluidos dos nossos corpos no chão desta casa. Comigo. Porque ter-te-ia pedido. Porém. Perdoa-me por não te ter amado ontem como amo hoje a tua ausência. Por não teres escapado ilesa aos versos e versículos afiados deste desafio que é domar os capítulos do quotidiano. Não irei à tua procura. Nem que as palavras se afoguem nas marés. Os cromossomas da saudade se afoguem nesta gritaria hereditária. As fogueiras se apaguem em metades de um infinito vestido de lã terna iluminando com seus rasgos de luz ternos e macios o coração que bate e embate contra o peito. Está dito. Nem um só soneto pior que a ementa. Nada direi. Mesmo que não aceites o meu alfabeto. Semearei uma gota de água na tua sede. Plantarei uma floresta dentro de casa. Comigo. Nada direi. Não vais precisar mais do que metade do infinito para me ressuscitar. Foste. És. Serás. Próspera. Um caso ao acaso. Areia movediça. Áspera. Volúvel. À espera de um milímetro de oásis. E se houver lágrima. Atravessá-la-emos. Se houver uma casa. Vestir-me-ei com as tuas cortinas de lã. Dar-te-ei de beber água em pó. Juntos. Mudaremos as fraldas aos poemas melancólicos.
Porque tristeza é ler uma emoção e achá-la triste por ser bonita!
Porque nada direi. Porque nadarei até que as forças me percam os braços. De resto. Só isso. Juntos. Deitados à beira-amar. Enumerando as estrelas no tecto. Supondo dar um fim ao fim do que é doce e breve. Nada direi. Ainda que me obrigues a beber o mar de uma só vez. E que continuemos cúmplices do simulacro dos poemas que tens achado. Frígidos. Sem pontos erógenos. E sísmicos. E amnésicos. E pejorativos. E impulsivos. E só isso. Pois. Nada direi. Sobre este dormitório. Onde as paredes são húmidas de alto a baixo. Onde. Há bolor nos livros por ler. Onde. Lâmpadas enferrujadas criam a ilusão de luz. Onde. Construímos versículos de água em pó. À beira-Amar.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Numb - Portishead

No fim... A única maneira de apagar a luz é acender um fósforo e continuar a reconstruir a eterna claridade!!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

sábado, 6 de dezembro de 2008

Engoli a respiração. Travei as pulsações das palavras dentro da boca. Nutrido com serenidade. Faço um compasso de espera. Caminho em frente. Com passos de esperança. Acrobáticos. De costas voltadas para o caminho. Ilumino os retratos escritos nas paredes com a ponta do dedo indicador. Nutrido com teimosia. Ponho de lado o lado isolado da fábula de mim. Fora do peito. Luto com as palavras em contos e desencontros.
Escuto o vento correr connosco à vassourada em ilegítima defesa.
Invento. Mosaicos. Disparates. Ironia de dois gumes. Frases meio vazias. Saídas de emergência. Para lado nenhum. Útero em ventre de prisão. Solidão contagiosa. Cócegas que não sossegam as emoções como também cegam o olhar das noites.
E luto. Nutrido com paixão. Luto. Em litígio com esta pseudo intimidade. Com os búzios. Com as conchas. Com os oráculos. Com chás de aromas açucarados. Com chamas em tochas que ardem. Apagadas. Sim. De luto ou não. Luto nutrido pela vida. Alimentado pelas palavras. Absurdo e mudo. Sem essa tez negra de aguarela perpetuamente submersa à entrada dos sonos que não dormem. Sem tripé. Sem trapézio. Sem pára-quedas. Sensatez. Simplesmente. Brincadeiras que recriam verdades. No habeas corpus dos afectos. Indeferido. Mas em pé. De pés bem fincados no voo. De pé. Em queda que pára o tempo. Que dás ao relógio que não voltou.
Porque luto. Espremendo sobrancelhas e pálpebras até achar uma gota de água cristalina. Um meio à meio do infinito transitório. Quem sabe? Rajadas de artilharia poética inofensiva como dentadas de anjos. Mas. Se fizerem ferida. Mandem-me sete vidas de volta aos palmos abaixo da terra. Decretem o amor. Mas. Não sem antes me ensinarem o que fazer com ele. Omitam as núpcias infiéis deste acto de viver vivo.
E tu.
Dá à luz uma constelação. Divorcia-te de ti mesmo. Provisoriamente. Delicia-te com as tuas ilusões. E luta com o traje que despes o corpo. E sem te deteres perante a espessura dos muros. E sem tremer por teres pouco mais que a textura fútil dos teus textos. Advoga apaixonadamente esta breve fábula transitória. Faz com que a poesia chegue límpida e leve como uma dádiva. Sem peripécias. Prolonga a sentença irrevogável. O conto final. O ponto de partida para o outro lado. Insustentável. A nossa intimação íntima e última. Inevitavelmente. Suspensa numa pena que a todos suspenderá.
Ganha-a!! Mesmo que ao chegar repares que a saída não tem estrada
.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Projecto colectivo

Encontro de documentos poéticos no plural reunidos num livro de expressões singulares...

Apresentação:

Lisboa 5 Dezembro, Livraria Barata, 19.30h

Mais informações em: 22olhares.blogspot.com

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Lapso

Se por um só dia for...
Nada melhor que uma chantagem de afectos para encobrir todos os lapsos de fraternidade por desembrulhar.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Alcateia Imagética
Com
António Lobo Antunes

Quando cheguei já a porta estava aberta. Interrompi. Talvez um prefácio ou uma dedicatória para alguém. Presumo. Encontrei o mesmo silêncio definitivo. imperativo. Todos os ruídos eram semelhantes ao Silêncio. Somente quebrado pela fricção entre a caneta e a folha de rascunho. Nada mudou. A inquietante estranheza do "lugar de trabalho" no entanto, hospitaleiro e afável...

Sem caprichos nem sintómas visíveis de qualquer espécie de vedetismo. A conversa deabulou à volta de tudo um pouco. Tímida. Reservada. Mas fluente...

Com um sentido de humor paradoxalmente complexo e acessível.

Entre um sumo e uma torrada. Mais uma oportunidade. Ler o escritor sob um ângulo diferente. O que nos revela o homem. Toda a sua humanidade. Sinceridade. Autenticidade. O homem com situações reais. Comuns... O homem fora do livro.

Uma personagem humana admiravelmente humilde. Dotado de uma sábia e genial grandeza interior...

Não são só as palavras.

É o acto.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Narrativo
U
m horizonte cada vez mais sempre. Aqueles anéis de luz interrompidos quando. A mão que acaricia depois. Talvez uma alma circular que embate desde. O despertador que não trocou. Outra contradição íntima que entretanto.
Sempre. Sempre com palavras desarrumadas sobre a mesa. Quando. Quando o crepúsculo vier corrigir as linhas curvas dos meus passos. Em câmara lenta. Depois. Depois da raiz quadrada. Dois versos. uma quadra. De segredos divididos. Com uma máscara translúcida. Hipérboles. Tangentes. Ângulos vários sem métrica. Segmentos. Circunferências. Eixos. Hipotemusa de estranhos poemas. Números pares. Números divorciados e ímpares cada um par da sua solidão. Depois. Depois destes monólogos confusos. Com fusos horários trocados semeando ilusões nos calendários da memória. Desde. Desde o momento em que tentas excluir a exclusão sem perder a tua própria âncora. No fundo do mar. Entretanto. Entre tantos holofotes virados para o anonimato. Enquanto. Enquanto o semblante indiscreto de um olhar anonimata-me a luz do candeeiro ao relento de mim. Mesmo. Mesmo. Que a noite venha mastigar o barco de papel não vou cruzar os abraços. Na fronteira dos equívocos e gralhas. Enfrentarei a utopia com palavras de aço. Irei de boca em boca com uma explosão de tambores acústicos declamar. Pregar. Recitar. Narrar. O esplendor das nossas batalhas. Irei. Mesmo com uma alcateia de aranhas penduradas por detrás das vidraças. Vestígios carnais à tona da cama. Roupa por todo lado espelhada no chão. Espelhada nas escadas. Espelhos partindo. Fabulosamente pobres. Aquela cortina quase sem cor. Rente à alcatifa. Aliás. A cortina faz de porta. Espécie de biombo. Desde o nervo em que fui incapaz de dar um pontapé naquela porta de madeira enferrujada. Não. Apenas tentei afugentar uma mosca com a ponta do pé e sem querer derrubei as asas da fechadura dos segredos só de mim anónimos. desconhecidos. Os destroços em forma de alimento. A panela queimada por falta de esquecimento. A loiça para lavar a vontade espalhada na cozinha. A luz redondamente enganada por arrumar no tecto. O pano para varrer a preguiça de esfregar os olhos para te ver. No fim. Porque.
É festa-feira.
Amanhã será sábado o dia. Pois. Irei. Irei. Embora tímido nestas regras sem jogo. E Rei na longa paciência que é amar sem trono. Mesmo sem poesia nos bolsos para comprar o pão de cada verso. Mesmo desempregadamente no olho das ruas que me empregam partidas. Mesmo de prego em prego martelando as portas. Irei. Desocupado. Aprender mil línguas para te dizer um beijo. Em todas elas pedirei a absolvição da lâmpada lá em cima que te faz confundir as estrelas com as pedras. Sonâmbulas. Pedirei. Mesmo sabendo que em nenhuma delas te vou compreender.
Não vou cruzar os abraços. Vou excluir a exclusão. Voar alto. Sonhar baixinho. Antes que a noite chegue para mastigar o arco-íris de farrapos coloridos. E o vento regressar para me ressuscitar à chapada. Dizendo-me em tom de segredo. Acorda! Acorda meu filho. Acorda! Já é dia. Mas. Mas vocês enrolaram a corda à volta da língua um cronómetro antes do sono alcançar os olhos. Sim. Como vês. Só resta esta jangada. De papel e trapos. Mas. De aço como algodão. Algo tão delicado que as mãos dão em leveza e brandura para não quebrar a corda e o sono e a cama e a língua e o dia e o tom em segredo e as pedras e as estrelas e as máscaras e o arco-íris e a jangada e os papeis onde esqueci as vírgulas e a pontuação final nas nossas loucuras. Como vês. É no convés dela onde alvejo as ondas que anonimato cada vez que os martelos se recusam a absolver o silêncio enrolado na língua.
É do ar do fluxo marítimo que decifro o meu nome.
Porque não conheço sinónimos para o impossível.
Porque um verso são versões que os outros dirão.
Porque a grandeza da minha razão será sempre mais luminosa quanto maiores forem os lábiosrintos da minha simplicidade.

sábado, 18 de outubro de 2008

Paradoxa

A imagem é tudo. Para quem não tem mais nada para dizer.

Pois então. Palavra após palavra. Vou. Fico. Arrisco. Levanto-me. Esperanço-me. Com a última espera a morrer. Escravo um poema. Um verso. Cravo em cada mentira uma verdade. Breve. Nervosa. Com a flor à pele dos nervos. Grito. Alugo a alegria à hora. Encosto-me à jenela. Nela sinto o naufrágio das gaivotas. Em sobressalto. Susto. Cuspo-te pelos olhos. Cegos de promiscuidade. Obscenos. Como a invaginação fértil quase nocturna. Da paradoxa que me incendeia os pensamentos nas horas desabitadas e vagarosas e atrasadas e frias.

Porque de boas intenções está o inverno cheio.

Meu Deus!!! Dá-me vida dentro do sonho. Soluça-me os sentidos para me passar o susto. Não apagues a ilusão. Nem a bússola que me desvia. Sou de ti. Aquele que de ti é o mais teu. Cortei o revólver aos bocadinhos. Devorei à queima-roupa todo o teu vestuário. Num terreno baldio. Queimei as lágrimas. Palavra após palavra. Fui. Fiquei. arrisquei. Esperancei-me. Fui contigo pelos infinitos do teu horóscopo. Inútil. Inutilmente errado. Arrisquei. O descaramento de convocar um exército de sonhadores para simular um atentado poético na tua inspiração.

Porque escrevo. Para perder tempo. Porque vivo como quem desenha nos pulsos uma lâmina sanguínea suja de ciúme.

Porque amar ela é nunca me ter amado. Porque amar ela é anestesiar-me em todas as direcções dos meus sentidos. Amarela é a cor de mim e dos meus vestígios. Amarela é a cor do arco-íris que pintei nas folhas de rascunho vinte e quarto dias por hora à procura de uma ama onde deitar os restos do nosso cansaço entre quatro paredes oblíquas.

Para quem não tem mais imagens para dizer. A palavra é tudo!

domingo, 5 de outubro de 2008

Caminhos escritos à mão

Enfeitarás o coração com sentimentos presos fora do comum acreditando desesperadamente que é possível endireitar o destino com uma varinha mágica. Custe o que custar. Agarra-te. Não me deixes cair fora do túmulo do poema. Sacode-te!!
Escreve mais um copo para esquecer. Só mais um pouco desta loucura essencial ingerida aos tombos. Mais um caminho que termina amanhã. Só mais um corpo com sono de viver.
Quem ama assim as nuvens é inevitavelmente um dá dor de palavras. Eu sou simplesmente um dador de sangue em estado sólido. Custe o que custar. Não me deites fora. Deita-me dentro. O corpo é irrepetível por mais que o plastifiquemos. Uma desordem no equilíbrio dos pilares da ingenuidade e do tempo de ser sem tempo. Um chamamento vagaroso sem resposta para o fim. Custe o que custar.
Que não te custe muito não me deitar fora. Deita-me. Fora do comum. Fora da lei. Fora daqui. Do poema para fora das palavras. Das palavras para fora do silêncio. Do silêncio para fora da tua boca. Deita-me. Adia a ousadia da noite. Não adianta trancar os olhos. Adiantei os ponteiros do relógio para trás. Custe o que custar.
Serei sempre o primeiro a não entender nada do que escrevo. E o último a engolir estrelas escritas à mão.
Fora do comum. Fora deste fragmento autografado que te ofereço. Como se fosse uma fotografia de mais um sonho embrulhado na tua mão. Custe o que tiver que ser. Serei sempre um dá dor de sangue do universo do teu não querer. Custe o que custar. Se temos que sorrir então que doa de uma só vez.

Pedir aos pássaros que regressem contigo dos céus não é senão pedir em vão asas para continuar a cair!!

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Capítulos para reler de olhos fechados

Através do timbre admiravelmente autêntico de Luís Gaspar que amavelmente me emprestou a sua poderosa voz para atribuir sonoridade ao documento poético "
360 graus de silêncio" bem como ao depoimento intitulado "Hipérbole".

Para ouvir faça clique em:

"Lugar 91"

sábado, 20 de setembro de 2008

domingo, 14 de setembro de 2008

Mil poemas abaixo de zero

terça-feira, 9 de setembro de 2008

domingo, 31 de agosto de 2008

Entre Parábolas

Um dia hei-de ser dono dos meus próprios acontecimentos. Hei-de acontecer como borboletas no tempo de regressar. Anoitecer num pedaço de luz. Acontecer-me na alegoria das coisas reais e na alegria das coisas poéticas.
Por enquanto. Faz de conta. Faz de conta que as palavras embora desmaiadas servem para servir para alguma coisa. Por enquanto. Conto-me contos antes de adormecer. Embalo versos. Algarismos capazes de medir o peso de uma voz com cálculos de tabuada. Por enquanto. Peço ao corpo para não falecer antes de mim. Porque entre parábolas e retalhos em véspera de poesia abundam vestígios de vida baseados nos factos verídicos das tuas ilusões.
Entre parábolas. O cataclismo. De repente instante de querer ser contente… Entre parábolas...
Quem nunca habitou um sonho por engano à beira-mar ou à beira do silêncio? Quantas toneladas mil de gente à mercê dos vazios rasgaram unhas mas aprenderam a soletrar o Inverno à distância de uma fotografia?
Paz de conta que estás em faz contigo mesmo! Como tu também eu trocaria um poema por uma flor. Os meus dois braços por um só abraço. Os meus lábios por um beijo. Os olhos por um olhar qualquer. Seja lá de quem por. For mim tanto faz. Faz de conta que o amor é o engano maior que as palavras. Estas palavras. Desordenadas e mordidas e encardidas e trocadas e erradas. Mas. Alegres em sua fértil e ténue exultação. Como tu. Trocaria. Esta casa. Esta cadeira. Esta cadeia. Esta cama. Esta repetição. Este equívoco de escrever sem seguir a gramática interior de cada sentimento.
Porquanto não escrevo línguas. Analfabeto-me em linguagens. O ponto de partida para entender os meus enganos não é a partida. Não é a quebrada ou a rachada. É a chegada. De quem nunca soube partir para sempre!
Partir. Um vidro. A alma. Partir. As cordas vocais de um grito. Partir seja lá para onde for. Seja lá com quem for. Seja longe ou preto. Seja de rosa ou azul a cor do mundo. Se já te esqueceste de nós. Se já aconteceste no calafrio que os lençóis não conseguem calar.
O espelho. Agora só. Onde me demoro a sair. O espelho. Agora sou eu a serenidade e o contentamento à porta do que ele reflecte. Agora só sementes. A terra. O sol. O sal e o sonho. Sou mar se mentes com mentiras que já não me fazem sorrir. Sou os impensamentos de alguém. Os tambores cardíacos batendo em voz alta no peito. Agora só. As borboletas. Pedaço de luz. Coisas reais. Coisas poéticas. Coisas. Contos que fazem de conta. Algarismos. Parábolas. Vestígios. Sementes. A partida. A chegada. Em véspera de poesia!
O espelho. Agora sou. Asas rastejando bem alto sobre a terra húmida que já não falo. Um dia hei-de ser. Uma noite. Um dia. Como quando o fotógrafo nos disse para sorrir e esqueci.
O espelho. Mostra-me sempre o lado imperfeito. Partes íntimas dos pensamentos que o corpo está proibido de exibir.

domingo, 17 de agosto de 2008

Frase do dia e da noite

Às vezes a única ausência que sentimos é a nossa!

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

meta-AMOR-foses

Manda-me de volta todos os beijos que não demos na hora da despedida que nunca existiu. Manda-me um só momento que sirva para resumir todos os instantes provisoriamente eternos, devolve-me a metade de ti que me pertence, a peça do puzzle que inventei para me entreter enquanto exploro os meus excessos à flor da pele, enquanto culpado me confesso do silêncio audível no interior da tua boca.

Poema?
Devolve os sorrisos que não partilhei com os teus lábios. Reaparece, grita-me a tua ousadia, cospe-me no rosto e no resto que sobra de mim, vomita os fantasmas que coloquei nos teus sonhos, arranca de mim os filhos que não me deste, morde, trinca, beija este corpo com bofetadas. Isto é amor. E se não for, então que se lixe!!

Que se lixem as rosas que não te ofereci, que se lixem as lágrimas que bebi do teu olhar, que se lixem as recordações na reciclagem da memória, que se lixe o vazio que escrevo, que se lixem os instantes provisórios, os beijos, a despedida, o puzzle e eu. Mas, por agora... imploro-te...
Apaga no coração as mil vezes que te matei sem te avisar e as vezes mil que não te amei e escrevemos utopias eternas nos lençóis!!
Poema?

Rasga-me os sentimentos que já não sinto, as pétalas, os ramos, o pólen, as raízes, deita fora todas as emoções que já não penso e guarda os espinhos para te acariciarem a epiderme e dorme sem que a tua boca cuspa uma lágrima, enfurece-te carinhosamente, corta em fatias essa overdose de esquecimento, anestesia o meu choro com beijinhos mesmo que não sentidos.

Poema?
Engana-me na única verdade que é acabar e regressar ao pó e quando estiver deitado, grita-me que não morri!!
Poisa em mim como uma tempestade de orgasmos organizados por desordem alfabética. Empresta-me o tempo que não tive para te dizer o quanto demorei para encontrar o ponto onde começa e termina a eternidade que se encerra numa hora onde não cabem sessenta minutos de realidade. Uma hora onde não cabe nada que não seja sublime como a tua doentia solidão enterrada no solo árido deste fragmento poético quase tão ofensivo e obsceno como o dono dele.
Meu poema... meu amor...
Empresta-me um sonho que não seja meu, uma mentira pequenina para me aliviar a espera. Uma mentira, dessas que não magoa mesmo quando se tratam de verdades violentamente incuráveis como uma despedida para sempre. Para sempre e por hoje, empresta-me um alfabeto diferente. Cansei-me de dar nas vistas sempre com os mesmos disparates. Cansei-me de ti que ingenuamente apenas serves para me fazer sorrir de nervos, tão assim, mais ou menos isto ou tão míope, que só visto. Tão ausente, tão desatento, tão alheio, tão filho da mãe como a vida, às vezes. É!!

A morte é a incurável certeza que nos mantém vivos!!

Se alguém duvidar, então ressuscitem-me deste sono, atirem a primeira, a segunda e a terceira pedra e deixem-me descansar na sétima noite da minha ausência para que no final possas perceber que é tarde para me proibires de sonhar...

E isto será sempre amor! Mesmo que as palavras doam, será, mesmo que não seja nada. Será, mesmo que pareça um desmaio voluntário, um recém-nascido à espera de um espancamento fraternal que lhe desperte o primeiro choro. Isto será sempre amor, uma teimosia tragicamente razoável que excede as utopias que deambulam à volta da tua imperturbável apatia. Será o que tiver que ser portanto, empresta-me uma catástrofe de miminhos, o desastre afectivo das tuas quimeras, devolve-me o alicate, o serrote, os martelos, as enxadas, a guilhotina e, já agora, os bisturis, preciso de uma cirurgia emocional, que arranquem de mim o teu suor e me deixem ficar apenas a esperança e o lapso de ser imaturo porque de real só me resta a discreta verdade da fantasia.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Poeticoterapia

Antes de folhear as flores pintadas de fresco. Arrumei os sentimentos no seu de vidro lugar para não quebrar mais nada. Mandei chamar os curandeiros da loucura para te ressuscitarem pelo menos na minha memória. Depois. Vasculhei o passado em busca do futuro sem temer a sobrevivência do presente. Remendei o coração com as linhas de um caminho-de-ferro. Desenrolei as pétalas substituindo-as por pérolas. Fiz-me vagabundo à lareira dos sonhos ao relento.

Depois. Muito além de nós dois. Descaradamente e sem asas nas algemas.

Cruzo-me comigo por mero engano nos intervalos do sono. Deambulo pelo quarto com uma caneta na mão pronta a disparar. Descarrego um poema apenas da boca para fora. A dor meço aos palmos como se fosse possível medir e calcular com a mão o comprimento exacto do teu odor. Meço cada centímetro do teu sentimento como quem se espanta por morrer pela primeira vez sem tempo para escrever a última prosa feita a base de extractos de poesia. Com alguns restos de nada e um pouco de pânico. Depois. Escrevo e escavo a terra. Atiro-me flores lá para baixo. Adormeço. Adormecendo a dor que não vem escrita no teu caderno de contos de fadas. Agora não me venhas dizer que é triste desejar loucamente manter os olhos escancarados à vida nem que seja à força.

Atreve-te a admirar o último raio de sol. A humildade nos gestos. A humidade nos olhos. Sim. Não vou ler o teu olhar. Também eu sou uma ponte a construir. Sobre a água. Ofende-me com os teus elogios. Também eu sou um analfabeto assumidamente em constante denúncia de mim. Impudicamente. Doente de esquecimento e infinito e esperança e carinho e de ti. E não de objectos como objectivos. O meu objectivo é o Ser. Ser inconquistável como um escândalo de sonho. Imperceptível como os ritmos quentes que fervem e remexem as ancas do mundo. E se quiseres despedir os meus murmúrios. Despe-te à vontade. Despede-te de tudo. Despe tudo e todos que o teu despeito levou. Despe-te de mim. Despede-te com aplausos. Depois... Tira tudo. Menos o coração. Vai. Vai-te em qualquer lugar nem que seja embora.

A tua doença é ter um abismo na alma perigosamente intransponível!!

Mas, antes de me desmascarares a flor pétala a pétala. Cura-me com o teu veneno. Não tenho vacina para nada!

Também eu sou um analfabeto da verdade que procuro.

Desconexos

Para quê complicar a essência do que é essencial para fazer um comentário?

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Subdoxos

A vida a dois é o formidável suplício que os solitários procuram!