quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Com sequências
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
É tarde para ficarmos do lado de fora da página. Entra pelos versos. Não vou forçar nem mais um sorriso na hora de dizer que te amo. A partir deste ponto final passarei da poesia ao acto. Vou ranger pedras umas contra as outras. Mas só um pouco. Afiar orgasmos que desaguam como bicos de lança. Mas só um pouco. Agitar respiração dentro dos pulmões destapar o sol com a peneira coar luz sob a cumplicidade das velas. Mas sou um pouco. Incomum. Como um de nós.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
domingo, 4 de outubro de 2009
terça-feira, 1 de setembro de 2009
O sorriso mais perto da boca fica aproximadamente a uma ou duas distâncias daqui. Se isto não sai imaculado não é por não compreender a distância mas porque já só consigo escrever à dentada cada verso que ocupa o lugar de um beijo. Já só contigo consigo abrandar batimentos cardíacos que ameaçam a integridade física dos poemas que escrevo em voz baixa para ninguém saber. Bando de cordas vocais em segunda mão usadas para açoitar tímpanos de quem espreme a memória até ao osso. Inventa solidão para preencher isto que não é poema escrito em voz alta não é fracção de noite em que se calam afectos não é nada que entra pelos bolsos e sai pela boca não é coágulo de barro para asfaltar flores que faltam nas tuas mãos mal adivinhadas.
É isto que eu quis. E nunca vos disse por querer tanto ajustar palavras à verdade embora por entre metáforas de fácil indigestão. Ousadias que usam noites para se africarem em danças de alma. Em pegadas em que não deixámos passos. No horóscopo que desacerta a idade que o beijo demora a chegar ao coração. Tempo que o capim demora a crescer e a tapar os rios com lençóis de granito. Distância que a luz demora a entrar pelos teus olhos e a sair pelo que escrevo. Palancas que caminham rente ao arco-íris. Sono indormido que assinala o sonho e a página antes de apagar a leitura. Poetas que mastigam à dentada versos que ocupam o lugar do vazio. Outros que espremem a memória até ao que não posso apregoar com a tua voz. Os mesmos que vendem poemas ao preço de gotas de água só para matar a fome das palavras. Olhos que vi com os meus próprios. Espelho tão teu mas muito mais nosso do que meu. Carícia que me afrodizias com o olhar. Aquietei. Atei tudo num saco e atirei dentro de um rascunho.
Porque nem sempre o corpo é um lugar atraente em que se está. Porque defendo a tua loucura. Dela dependo para continuar a querer. Porque poesia não é ainda poesia se por dentro não tiver pelo menos um centímetro de amor antes de ser solidão. Isto nunca vos disse. Porque isto não é como um poema.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
terça-feira, 28 de julho de 2009
Se te perguntarem pelo endereço da ilusão. Dá-lhes o endereço errado.
sábado, 4 de julho de 2009
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Semeei água nos vasos para ver germinar um rio. Pendurei o caminho ao pescoço para não perder de vista os passos que me andam cá dentro. Esfreguei gindungo nos olhos para ver arder a pólvora que trazes na ponta da língua. Tenho olhos de palma açucarando o refogado das nossas guloseimas. Cesariana de versos alinhavados entre vírgulas e noites insonoras sem outro paladar.
Tenho vontade de aparafusar poemas nas paredes e pôr um ponto afinal nesta pintura feita de despedidas caminhos-de-ferro e alguns cais de embarque pintados de fresco.
Como quem respira por telepatia. Desembrulho-me peça a peça. Dispo fôlego pelos poros. Deixo-me subir em contra mão de cima para baixo. E nada disso é. Porque a qualquer momento pode ser domingo. A qualquer instante a prosa pode dizer de mim o que não quero escrever enquanto a mão prepara a azagaia para assediar corações com raios de preguiça. A qualquer momento o fim pode chegar ao sonho e o ponto além de nós pode nos mudar de página sem termos terminado este parágrafo.
A qualquer corpo de rua num instante rápido de amor que não dá momento para monologar sorrisos.
Pois. Nunca se diz os maus hábitos das coisas que não falam. Habitua-te! Estou aceso com uma insónia enfiada nos olhos. Oh! Estou nada disso do que disse. Habitua-te a resistir sem deixar que o amanhecer seguinte se apague. Viverás empanturrado de vida se não souberes interromper o coração com breves relâmpagos de ilusões. Repito. Habitua-te. Sei do corpo a perder peso. Dieta fora a balança que te emagrece a respiração. Habitua-te a ser um pouco mais...
sexta-feira, 15 de maio de 2009
sábado, 2 de maio de 2009
Cervejo-te num copo vazio de espuma. Não te bebi os sonhos esta noite. Estou sovinho no quarto com uma garrafa de poemas apontada à cabeça. Entorno uma lágrima pelas escadas abaixo. Engulo de um só trago o desejo em torno da pele. Procuro a bússola às apalpadelas. Dizem que quem te língua vai ao aroma dos teus lábios. Eu prefiro continuar adormecido. Não há melhor abismo que acordar de um sonho pornográfico e reparar que o mundo melhorou um pouco graças ao nosso amor. Prefiro continuar em vigília. Sem anestesiar o coração. Estou-me nas tintas para a métrica desobediente que uso em cada verso!
Um poema é muito mais que poesia. É um precipício de corpo inteiro em queda livre!
Mesmo sem o teu com sentimento fumo as cartas perfumadas que não chegaram. Torno-me socorrista voluntário dos teus desabafados. Do mundo apenas quero um pedacinho para levar para casa. Só! Respondo aos teus poemas com sotaque de silêncio como quem responde indignado a um insulto obsceno. Invento a brandura das estrelas para apaziguar aquelas discussões quase domésticas logo pela manhã com medo que os caçadores furtivos viessem durante a noite para nos assaltar a lua. De nada nos serviu. Nem a carapuça.
Como um camaleão. Mudas de palavras conforme o sentimento onde te encontras. De tanto te dizer o que sinto acabei por me desdizer no que sou. Peço licença a solidão que habita no quarto ao lado. Entro. Dou cambalhotas com a vida. E saio. Fecho-me à chave debaixo dos lençóis. Sustenho minutos que não vêem escritos nos relógios. Sustenho vertigens dentro dos olhos. Interrompo a linguagem irrequieta que sustenho no dedo que indica a dor. Ariscas a vida o sangue a carne os ossos riscas a folha o espelho o rosto com cacos de algodão de vidro. Sou mais caçador que furtivo. As palavras são a minha pressa. Sem olhar nem para um lado nem para o outro atravesso a estrada fora da passadeira. Passa por cima desta coisa que me faz sentir e risca-me a alma como quem risca um fósforo.
Estou-me nas tintas para os alfinetes com os quais alfinetaste o pára-quedas quando saltei o meu corpo pela janela. A inutilidade da escrita sinto-a na hora de ficar calado! E nas tintas só estou de vez em quando quero pintar as rosas da cor da vida que não é. Quando és o sabor de um fruto antes de amadurecer. Quando nem todos os caminhos vão dar ao teu aroma. A inutilidade das palavras sinto-a não na hora de ficar calado mas um minuto antes do bolor contaminar o pressentimento que quero vomitar. Mas não vos imito. Ainda transpiro o bálsamo fresco da memória como se da infância nos conhecêssemos. Ainda brinco às escondidas com a felicidade como era antes. Molho-te com passos de dança em cima de poças de água. Agora cuida do presente. Cuida do ar em movimento à velocidade de um sopro de vento. Poeira. Adubo. Seiva. Fermento. Cuidado com a mania de fabricar naufrágios fora de horas. Os espelhos não se rasgam com as mãos. Cuidado ao tentares domesticar a palavra infinito. O tempo não deixa gorjeta.
Bordei o luar. As ondas. A espuma. A areia. Por hoje termino aqui. Frente à praia. Apetece-me acordar noutro lugar da minha loucura e não mais pensar no assunto.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Estação de Queluz-Belas, Linha de Sintra
Quando levo o sono para cama antes de fechar as cortinas descalço-lhe a raiz da insónia onde me deixo cair. E quando não caio nem no sono nem em mim sacudo o hemisfério esquerdo do meu peito para entender o som pontiagudo do grito que entalei entre os lábios. Quando não caio em mim mudo o perfume das glicínias que trepam à beira da queda. Ponho rosas a cheirar a papoilas. Rego orquídeas com água de açucenas. Desço à rua para emendar as letras maiúsculas do nome dos imbondeiros em chão de terra batida com bofetadas e outras carícias. Escrevo ilusões que não existem a cada esquina do poema onde a mão a caneta o papel a tinta e se não me engano a espada e a parede entre mim são hipérboles arrastadas ao abate.
O horóscopo virá responder por nós à tarefa de equilibrar o sonho com o braço enérgico de um acrobata embriagado. Digam-me de uma vez por todas. Por todas horas absurdamente em excesso de velocidade quando a ilusão é dolorosamente doce. Quantas pulsações são precisas para empurrar um corpo ao último pedaço de lenha por arder? Em que reclusório almofadado vos abandonei presos à liturgia do esquecimento? Quem virá sequestrar com a boca esta meia dúzia de beijos distorcidos nos lábios? Conseguirás sobreviver no mundo da lua e descer à terra sem escorregar na casca das palavras que atirámos para o chão? E os bocados de alma que descascámos? E os orgasmos esmagados entre as pernas? Quero lá saber!! Temos um emaranhado de respostas aos encontrões umas contra as outras. O desenlace. Sabê-lo-emos quando as palavras perderem o prazo de vaidade e na pele os primeiros vincos esmurrarem o último sorriso vivo.
De uma vez por todas. Não irei mais à caça de mim com armas de fogo-de-artifício prontas a disparatar poemas que fazem cócegas ou comichão no hemisfério esquerdo do peito. Vou com uma fisga. A palavra tece o seu próprio delito. O poeta está lá apenas para recolher as lágrimas. Ah! E desembaracem-me já estas longas tranças negras rascunhos de meia-tijela opacas linhas sujas resmungonas abruptamente rabugentas. Parem os batuques. Aliviem o som das sirenes. Enfiem uma vírgula neste sono que quer medir forças com o despertador. O nevoeiro passou. Estou apto à ressurreição. Deus perdoar-me-á assim como eu tenho perdoado os meus dias e a quem me tem alimentado com manjares de esperança e determinação na hora de viver para além da vaidosa mendicidade da poesia! Estou apto à vindima da minha infinita dança com edição limitada. Meti mais lenha no pensamento. Para não apagar. Soltei as canções que entalei entre os lábios. E cantei. Sorridente! Agora parem os batuques. Vá lá. Já dancei as estrelas. De uma vez por todas. Parem!! Parem com este silêncio! Não vou repetir o antes de ontem. Toquem longe daqui. Já não acredito em divórcios à primeira vista. Vistam a farda dos poetas e toquem bem alto até criar fissuras nos pulsos. Se o som tentar escapulir por entre os ecos e soluços. Pelo menos um acento na penúltima sílaba para lhe dar uma tonalidade grave. Pelo menos esta boca que canta insaciável em fome não sei bem de quê. Pelo menos só mais uma pulsação! Não há fada nem varinha para adiar o jeito indecifrável de ir.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
quinta-feira, 19 de março de 2009
Não te disse o crepúsculo que habita os dias mal escritos. Não te disse que admitir a inutilidade da morte é tão proibido como dissecar o coração para desmascarar em flagrante as cordas sanguíneas da alma. Não te disse. Sequei o inverno e recoloquei as palavras na gaveta para não magoar a leitura de ninguém. Dissequei alguns advérbios de tempo e de bons modos. Reacendi pirilampos parindo em luz à luz do pôr-do-sol. Desenrolei os filamentos dos teus nomes e as artérias à esquerda dos algarismos que sei de dor e salteado. Não disse. Soletrei pingo a pingo a chuva que bebi dos teus olhos. Destapei o rosto e mandei lixar os insectos e a fragrância das tuas palavras. Oxalá nunca tenhas que experimentar as tuas próprias ficções extremamente poéticas.
O baloiço de pedra. As lâminas que acariciaram as pulsações da voz que engoli quando tentei falar a última vez o último beijo o último poema íntimo. Não te disse. Sei apenas por ouvir dizer. As páginas de pólvora em ebulição. Os aquários que vieram desaguar na mansidão dos rios em direcção amar-te. O único planeta que não sei de cor e que não te disse. Assim como não sei os astros é na poesia que os conheço. Assim como não reaprendi os dialectos da tua boca é por metades que escrevo e me apago nas linhas tortas cúmplices das tuas incertezas que não dissequei.
Os arvoredos o vento as flores a cidade o tempo a insónia a memória e todas estas coisas de fazer poesia. Não te disse para não te magoar a leitura. Para não te picares nas entrelinhas das rosas nem na enxada com que escrevo a terra. Para não lagrimares em seco a largura e o comprimento da fome nos dias em que não conseguires iludir o estômago com o fim do mês desordenado. Todas estas coisas já não são. Tornaram-se pontos de vista para todos quantos procuram disfarçar a cegueira tendo o coração à espera da ressurreição. Onde os desejos se despem e dançam e se despedaçam e a respiração seca. Onde as surpresas são ideias ocasionais aqui onde me encontro surpreso entre quatro muros altos. Onde a cidade é um exército de solidões desandando de um lado para outro. Onde a esperança é uma relíquia que não se deixa guardar nos bolsos mas nos faz permane-Ser. Onde os murmúrios em uníssono são uma canção de embalar as pedras molhadas pelo sol. Onde não sei os pulsos o sangue os nervos a inspiração arterial não sei o fruto a flor o tronco a raiz a terra a semente não sei a vida por ouvir dizer que existe. Sei por me ouvir escrever que a vivo e preservo.
Não te disse nada para te livrar das utopias que não consigo corrigir nem a pontapé.
Sei o que ficou por dizer. E o que ficou por dizer é que só dissequei as palavras para não te encontrares algures na míope leitura. E se já não tiveres atrevimento e bravura para ler apaga-me. Risca tudo. Passa uma borracha nos olhos. Só disse metade. Para não te magoares com o estrondo ácido de versos onde me aleijo cada vez que retiro da gaveta a esferográfica e ponho em prática as minhas reticências…

