segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Prosaria
À hora da poesia. Apago com luz estrelas que aguardam que o sol friolentamente se dilua no céu e faça luar o teu nome. Apago com palavras aquelas noites em que o sono não pega em ti e adormecemos de abraços dados cada um com o seu lugar marcado. À hora da poesia. Não faças distância perto de mim. Já não temos juízo nem idade para mastigar saudades.
À hora da poesia.
És tu o poema. Por isso engole estes versos que te dou sob a forma de tranquilizante para curar a arritmia dos dias feitos de sonhar. Negra-me na pele uma cicatrizte estampada com um arco e um íris. Endireita o caminho enquanto atraverso o poema de um lado ao outro e dá-me tempo para temperar a impaciência.
À hora da poesia.
Farei silêncio grelhado com pedaços de lua cheia. Farei carícias enlatadas e cachos de manga com sabor a fruta. Se restar fôlego. Farei crepúsculo cozido com fragmentos de nevoeiro. Oh. Não. Tudo menos crepúsculo. A última vez que fiz deixei queimar as horas dentro da panela. Quando destapei o tempo já não havia minutos que chegassem para namorar prazeres.

À hora da poesia.
É o teu alguém que acontece em mim como se não tivesse acontecido nada. É o idoso que vou sendo cada vez que a idade celebra mais um ano. É despertar com os teus sorrisos os sorrisos que ainda não ousas. São antídotos fora do alcance da fala. São botões de emergência preguiçosos. São braços entrelançados no peito.
À hora da poesia.
Escrever-te-ei em prosa para que possas tomar cada verso como um banho de cascata no coração. Respirar profundo o mar de hoje rente à linha do horizontem. Descascar a loucura ao ritmo de um grito definitivo e descalçar ilusões antes que seja tarde para recuperar a realidade.
À hora da poesia.
Quem te mandou a ti ensaboar o corpo com insultos de amor? Quem te rasgou poemas nos olhos apenas pelo simples facto de serem cascas de relâmpago colados à pele? À hora de bater asas na cara de outros voos. Quem te mandou assaltar trapézios com a altura de um céu? Quem me virá acudir se me acontecer um poema e tu não tiveres mais poesia para encher versos? Quem sacudiu lençóis de água à varanda da minha sede? Quem te vai emprestar os meus lábios quando os teus já não tiverem mais beijos para gastar?
Eu. Eu que te julgava um poema? Não! Tudo menos poemas. Hoje sei que à vista desarmada a poesia é realidade que acontece quando não se tem outra ilusão. Mas. O que importa escrever assim ou assado se conservo em mim a dádiva de ser alado como um pássaro voando na direcção correcta?

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Obrigado mana Loide por me emprestares a tua máquina!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

sábado, 2 de janeiro de 2010

Insolitário
Quando estiver quase a adormecer passem-lhe o sono pela torneira da água fria. Desatem o nó aos soluços que atravessam a garganta. Façam-no sentar à esquerda dos versos que mais não são que duetos com outras solidões. Risquem a pele os nervos a voz os pulsos com lâminas de encurtar distância. Quando estiver quase a amar. Não lhe ensinem amor como fazer de conta que se desfaz em conto de fadas.
Atirem-lhe contra a cara um balde cheio de poemas e mostrem-lhe com quantos beijos se faz a despedida. Tentem bebedeiras de palavras à toa e mostrem-lhe com quantos copos se enche uma noite vazia. Quando estiver quase a escrever. Interrompam-lhe as mãos várias vezes para que não remende as varizes do tempo. Não o deixem cozinhar o amor. Há de comer assim mesmo. Palavra a palavra. Até ficar cru.
Quando estiver quase a chegar. Destrancem fios de água doce em aquários doutros pássaros. Anestesiem-no com beijos que sobejam dos próprios lábios. Tirem a mania de reduzir nuvens a cinzas e esbofetear borboletas com candura suave de rapina. Atirem-no ao acaso com a força dócil das ondas e mergulhem este sonho feliz que se senta no colo dos versos como se um minuto fosse o instante lento que se senta segundos antes do despertar de quem não tem ainda o que sentir.
Oxalá a lua não o ponha a dormir até perder o sono das vistas. Oxalá o coração aguente mais um solavanco e espere tranquieto antes de mandar lixar os vários destinos que o destino é. Quando a voz lhe envelhecer nas palavras. Puxem-lhe os passos na direcção contrária do olhar. Lancem-no sozinho contra a cama e retirem as portas do casulo para quando entrar bater com o nariz no perfume das flores que não plantou. Quando estiver quase a descobrir. Destapem-lhe o futuro da frente e coloquem lá outra coisa que não seja passado. Leiam os gestos os dedos as mãos os braços a carne e gastem-lhe os caminhos de tanto andar a pé.
Quando cair num sonho feliz. Respirem-lhe os versos devacarinho para não doer. Deixem-no escapar tranquilo e quieto nem que seja por um triz ou por um triste corpo devoluto.
Lembrem-lhe que com as palavras não se brinca. A menos que seja para dizer coisas sérias.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Embrulhou meia dúzia de afectos adquiridos em segunda mão. Foi até à raiz da noite que não acaba em sono.
Não deu presentes. Deu ausências.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Com sequências

Deslouco-me de um lado para o outro sem sair da folha em branco. Do escrever soltam-se sílabas ambíguas lidas de baixo de água. Mas não afogo. Apenas um breve incêndio ao fundo do quarto. Tão só e mal iluminado como o sótão onde me visto de advérbios de medo e vogais com som antes do nascer da prosa.
Misturo palmas com as mãos e calço versículos em ebulição para ver se os músculos aguentam mais um quilómetro lá em baixo.
Descalço o pôr-do-sol da cintura para cima e quando não tenho no peito equadores perpendiculares ao eixo do coração estraengulo as palavras para que a diversão não se sobreponha nunca ao conteúdo.
Visto gritos que não me cabem na faringe. Experimento trocar a vaidade. Mas acabo quase sempre por vestir a roupa da noite anterior. Não tenho tempo para mudar todos os dias de mim. Às vezes visto o mesmo corpo durante o sono e o que escrevo repito para não cansar.
As horas continuam. Tão nuas como vêm em vão. A saliva coagula na boca. É pecado que se despe crepúsculo e se despede aurora.
Aproveito para revistar o quarto de uma ponta à outra. Devagar. Vasculho. Abro. Fecho. Desembrulho. Afasto a gula dos dentes. Deixo-me coagular lentamente nos abraços dos teus mimos como se fosses verdade.
Hoje quero permane-ser leve e dançar. Nem que tenha que agendar a despedida noutra data longe daqui.
Mas se porventura outra mão desarrumar o som da tua voz antes do nascer da prosa endireita o eixo do coração e dança com os meus passos. Sim amor. Dança. Devagar. Mas dança. Ou amordaça de uma vez por todas os meus tímpanos para não te ouvir ressonar os sonhos.
Com tantos poemas no armário não sei que versos hei-de vestir hoje.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Translucidez

Sai do meu poema. Exijo mais do que invaginar-me por ti adentro igual febre que espanca estoira sangra esfarrapa atordoa entra pelo quarto minguante sai pela culatra bate contra a cama atravessa os ventrículos e estremece a insónia como um terramorto. Vai. Mas só um pouco. E muda a cela do meu lugar. Euforia é quase sempre a continuidade de gritos engolidos pelo vazio quando ousas tapar a boca com beijos que não te pertencem.
Vai. Sai com esperança alívio alento e vigor mesmo que a saída não passe de um poema. Parte a linha do horizonte ao meio. Prende-te às nuvens e sobe mais. Fica até perderes o compasso a régua o fio o prumo e absolve quem por descuido arrendar amor instante efervescente cujo prazo de eternidade é mais ou menos zero.
Sai. Abala-me no peito. Alveja-te com o bem que me queres. Hei-de vasculhar pétalas até achar flor. Vou esperar pela água até encontrar sede. Hei-de procurar astros até encontrar céu. Vou procurar ondas até achar mar. Hei-de chamar-te com o meu nome até desencontrar o teu. Vou caminhar apé encontrar vestígios de inspiração na falta que te inspira a não escrever. Hei-de retirar aspas entre frases sem charme e dar-te mais vinte e quatro portas para entrares no meu poema. Chega. Não chores mais nisso. Mas sai. Brinca-me com palavras que não me impeçam de mastigar a tua voz até perder o sabor. Trinca-me os risos que se feriram a rir de nós por não sabermos chorar. Brincando. Apaga as pirilâmpadas transluzindo sombra. É tarde. Mas só um pouco.
É tarde para ficarmos do lado de fora da página. Entra pelos versos. Não vou forçar nem mais um sorriso na hora de dizer que te amo. A partir deste ponto final passarei da poesia ao acto. Vou ranger pedras umas contra as outras. Mas só um pouco. Afiar orgasmos que desaguam como bicos de lança. Mas só um pouco. Agitar respiração dentro dos pulmões destapar o sol com a peneira coar luz sob a cumplicidade das velas. Mas sou um pouco. Incomum. Como um de nós.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Bar novo
Faculdade de Letras de Lisboa

O beijo
são palavras que te dou na alma

domingo, 4 de outubro de 2009

360 graus de poesia
Não posso escrever poemas apenas com poesia. Poesia são sonos que vou dormir com o tempo que me resta até ser hoje. É poesia chegar ao fim do copo às vezes sem beber uma única palavra. Acrescentar mais uma hora à eternidade e entornar à tona da tua boca todos os desejos que sorvo quando não escrevo por ser de silêncio o tempo que te basta para ser feliz. São poesia corpos de água que peço ao céu para te embriagar com doses de esquecimento. São poesia sons que me ensurdescem pela garganta abaixo. Arcos de quem flecha uma janela no meio dum coração em pé de aços. Aguarelas de chuva que se fazem eco caindo em catadupla de duas gotas.
São poesia dardos em direcção ao oeste este incêndio à flor da pele este barco estes remos contra a maré estas asas este voo enevoado estes dedos de beliscar as estrelas depois das palavras. São poesia céus para voar transformados em obstáculo. Pontos cardeais que não chegam a nenhum poente. Caminhos de andar desmorteado entre o norte e o luar. Enxadas que descascam a paisagem. Sinais de fumo que nos atravessam em procissão poesia as fracturas de luz e traços de alegria e cores de azul. São de prosa as rosas do vento que nos revela até onde é infinito o sono que vamos levando aos poucos.
São de prosa.
A cama electrodoméstico de fazer metáforas quando a noite se enche de alma. A bússola que não me cura deste jeito imundo de apedrejar as palavras. O almoço que fica mais pequeno quando retiro metade para servir de jantar. O lavatório sujo de manhãs por esfregar. O pão duro matinal fora do alcance dos dentes. Os cigarros que perfumo como incenso. Doesse tudo isso como uma imperceptível bofetada de amor inscrita na face. Sou eu beijo ou inspiração boca a boca ao último verso. És tu a enlousquecer pouco a pouco horas acrescentadas no colo da eternidade. Somos nós corpo a corpo salpicados com um tiro de imaginação em papel de embrulhar sonhos.
Não posso escrever poemas apenas com poesia. Um dia não se cura de uma ferida para a outra e apenas saudade não basta para te esconder da minha ausência.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Afropoesíaco

O sorriso mais perto da boca fica aproximadamente a uma ou duas distâncias daqui. Se isto não sai imaculado não é por não compreender a distância mas porque já só consigo escrever à dentada cada verso que ocupa o lugar de um beijo. Já só contigo consigo abrandar batimentos cardíacos que ameaçam a integridade física dos poemas que escrevo em voz baixa para ninguém saber. Bando de cordas vocais em segunda mão usadas para açoitar tímpanos de quem espreme a memória até ao osso. Inventa solidão para preencher isto que não é poema escrito em voz alta não é fracção de noite em que se calam afectos não é nada que entra pelos bolsos e sai pela boca não é coágulo de barro para asfaltar flores que faltam nas tuas mãos mal adivinhadas.

É isto que eu quis. E nunca vos disse por querer tanto ajustar palavras à verdade embora por entre metáforas de fácil indigestão. Ousadias que usam noites para se africarem em danças de alma. Em pegadas em que não deixámos passos. No horóscopo que desacerta a idade que o beijo demora a chegar ao coração. Tempo que o capim demora a crescer e a tapar os rios com lençóis de granito. Distância que a luz demora a entrar pelos teus olhos e a sair pelo que escrevo. Palancas que caminham rente ao arco-íris. Sono indormido que assinala o sonho e a página antes de apagar a leitura. Poetas que mastigam à dentada versos que ocupam o lugar do vazio. Outros que espremem a memória até ao que não posso apregoar com a tua voz. Os mesmos que vendem poemas ao preço de gotas de água só para matar a fome das palavras. Olhos que vi com os meus próprios. Espelho tão teu mas muito mais nosso do que meu. Carícia que me afrodizias com o olhar. Aquietei. Atei tudo num saco e atirei dentro de um rascunho.

Porque nem sempre o corpo é um lugar atraente em que se está. Porque defendo a tua loucura. Dela dependo para continuar a querer. Porque poesia não é ainda poesia se por dentro não tiver pelo menos um centímetro de amor antes de ser solidão. Isto nunca vos disse. Porque isto não é como um poema.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Nos dias que não correm ficar preso a um emprego é demasiada liberdade...

terça-feira, 28 de julho de 2009

Trava o mundo por um pouco
Ainda tinhas manchas de água salgada no corpo. Não podias engolir em seco tanto barulho e despertar versos noutro chão. Porque os poemas. Todos os poemas. Tu sabias. São minúsculos abismos de papel que doem até onde for preciso ir para irmos mais leves.

Depois. Esqueceste. Soubeste imitar o céu quando chove e esculpe gravuras de sépia na pele das falésias soubeste substituir trocadilhos retóricos de mau gosto e de beleza fácil pela verdadeira humanidade da poesia cujo universo é mais fundo substituíste o estremecimento das marés pelo flutuar sereno das gaivotas soubeste deixar ir pelo cano desgosto a rosa cor mulata que hoje é dolorosa ou outra coisa qualquer poemificável. Mas vou.

Entro pela outra face da vida real. Incendeio palavras de ilusão embora sem saber distinguir se são poemas com que vos mostro aquilo que amo ou apenas endereços errados que me mostram o caminho certo. Vou pela leitura adentro à procura de abismos e papel. Vou pelo desejo de detonar o céu limpo do lado de cá e sacudir o luar lá fora sem deixar adormecer as luzes que rebolam cá dentro. Vou mesmo com razões de sobra para me vergar à contemplação do que ficou. Vou.

Recortar a paisagem pela raiz corrigir endereços de lugares perdidos com princípio meio e um pouco de fim. Juntar dias separar noites na véspera do encontro. Ensaboar as palavras antes de as poemificar. Entrar pelo envelope da despedida adiar todas utopias e pulsos de um só gume que recortam frases amuadas de mão beijada. Calar o despertador que te levanta da cama só para mais uma estrofe catástrofe de metáforas que não são nem mais nem outra coisa senão paradoxos que nos vivem por dentro. Agora sim. Pára. Trava o mundo por um pouco e fuma-me o silêncio!!

Se te perguntarem pelo endereço da ilusão. Dá-lhes o endereço errado.

sábado, 4 de julho de 2009

Mesmo sem poesia nos bolsos para comprar o pão de cada verso. Mesmo desempregadamente no olho das ruas que me empregam partidas. Mesmo de prego em prego martelando as portas. Irei. Desocupado. Aprender mil línguas para te dizer um beijo!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Contraprosa

Semeei água nos vasos para ver germinar um rio. Pendurei o caminho ao pescoço para não perder de vista os passos que me andam cá dentro. Esfreguei gindungo nos olhos para ver arder a pólvora que trazes na ponta da língua. Tenho olhos de palma açucarando o refogado das nossas guloseimas. Cesariana de versos alinhavados entre vírgulas e noites insonoras sem outro paladar.

Tenho vontade de aparafusar poemas nas paredes e pôr um ponto afinal nesta pintura feita de despedidas caminhos-de-ferro e alguns cais de embarque pintados de fresco.

Como quem respira por telepatia. Desembrulho-me peça a peça. Dispo fôlego pelos poros. Deixo-me subir em contra mão de cima para baixo. E nada disso é. Porque a qualquer momento pode ser domingo. A qualquer instante a prosa pode dizer de mim o que não quero escrever enquanto a mão prepara a azagaia para assediar corações com raios de preguiça. A qualquer momento o fim pode chegar ao sonho e o ponto além de nós pode nos mudar de página sem termos terminado este parágrafo.

A qualquer corpo de rua num instante rápido de amor que não dá momento para monologar sorrisos.

Pois. Nunca se diz os maus hábitos das coisas que não falam. Habitua-te! Estou aceso com uma insónia enfiada nos olhos. Oh! Estou nada disso do que disse. Habitua-te a resistir sem deixar que o amanhecer seguinte se apague. Viverás empanturrado de vida se não souberes interromper o coração com breves relâmpagos de ilusões. Repito. Habitua-te. Sei do corpo a perder peso. Dieta fora a balança que te emagrece a respiração. Habitua-te a ser um pouco mais...

A noite é uma dor em branco. Festa de soníferos de várias cores. Repito. A noite é uma cor em branco. Festa de soníferos de várias dores. E nada disso é. Mas não deixes que o amanhecer seguinte se apegue a ti. Se o depois acontecer antes espeta-me uma injecção com vitamina de esperança para estimular as minhas asas. Se não as encontrares. Tanto faz! Pode ser mesmo num dos braços ou em qualquer parte da minha voz que não esteja pele e osso.

Habitua-te. Tua é a prosa alcateia tamanho infinito. Árvore raíz palavra poesia. Carta distância destinatário improvável. Deserto túmulo lugar incerto. Restos sucata excesso crepuscular. Habitua-te. As palavras não pensam o que lês. São mil sentidos ao acaso em várias direcções.

A qualquer instante podemos descobrir que não nascemos um para o amor. E muito menos para o outro. Terás que fazer muito mais que ventilar bolas de sabão sem asas. Raspar luzes que caiem gota a gota em cima da paisagem. Susto caído no chão e que ninguém quer ir lá apanhar. Palavras aladas que tombam de sono no papel. Não metas mais. Muito mais. Palavras na minha boca. Os verbos têm cáries de fazer feridas na imaginação. Não metas palavras à força na minha boca. Eduardei-te todas! No tempo em que a paixão era algo comestível. Mete-me beijos na boca. Não ouviste? Mete mais!! Muito mais do que beijos que mentem e se metem em bocas onde não sou chamado. Mais que raízes que temem sementes de terra regada com flúor e saliva. Muito mais não sei arrancar de dentro. Talvez não seja preciso. Não metas palavras. Ainda não sei prosar o silêncio nem trepar ao patamar de cima onde as nuvens tremem constipadas por amar. Não mates as palavras por não pensarem o que lês.

Deixa nascer o sol seguinte!

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Palavras são cansaços de poesia a tentar pôr de pé um voo de alma.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

sábado, 2 de maio de 2009

Poematório
em primeiro grau

Cervejo-te num copo vazio de espuma. Não te bebi os sonhos esta noite. Estou sovinho no quarto com uma garrafa de poemas apontada à cabeça. Entorno uma lágrima pelas escadas abaixo. Engulo de um só trago o desejo em torno da pele. Procuro a bússola às apalpadelas. Dizem que quem te língua vai ao aroma dos teus lábios. Eu prefiro continuar adormecido. Não há melhor abismo que acordar de um sonho pornográfico e reparar que o mundo melhorou um pouco graças ao nosso amor. Prefiro continuar em vigília. Sem anestesiar o coração. Estou-me nas tintas para a métrica desobediente que uso em cada verso!

Um poema é muito mais que poesia. É um precipício de corpo inteiro em queda livre!

Mesmo sem o teu com sentimento fumo as cartas perfumadas que não chegaram. Torno-me socorrista voluntário dos teus desabafados. Do mundo apenas quero um pedacinho para levar para casa. Só! Respondo aos teus poemas com sotaque de silêncio como quem responde indignado a um insulto obsceno. Invento a brandura das estrelas para apaziguar aquelas discussões quase domésticas logo pela manhã com medo que os caçadores furtivos viessem durante a noite para nos assaltar a lua. De nada nos serviu. Nem a carapuça.

Como um camaleão. Mudas de palavras conforme o sentimento onde te encontras. De tanto te dizer o que sinto acabei por me desdizer no que sou. Peço licença a solidão que habita no quarto ao lado. Entro. Dou cambalhotas com a vida. E saio. Fecho-me à chave debaixo dos lençóis. Sustenho minutos que não vêem escritos nos relógios. Sustenho vertigens dentro dos olhos. Interrompo a linguagem irrequieta que sustenho no dedo que indica a dor. Ariscas a vida o sangue a carne os ossos riscas a folha o espelho o rosto com cacos de algodão de vidro. Sou mais caçador que furtivo. As palavras são a minha pressa. Sem olhar nem para um lado nem para o outro atravesso a estrada fora da passadeira. Passa por cima desta coisa que me faz sentir e risca-me a alma como quem risca um fósforo.

Estou-me nas tintas para os alfinetes com os quais alfinetaste o pára-quedas quando saltei o meu corpo pela janela. A inutilidade da escrita sinto-a na hora de ficar calado! E nas tintas só estou de vez em quando quero pintar as rosas da cor da vida que não é. Quando és o sabor de um fruto antes de amadurecer. Quando nem todos os caminhos vão dar ao teu aroma. A inutilidade das palavras sinto-a não na hora de ficar calado mas um minuto antes do bolor contaminar o pressentimento que quero vomitar. Mas não vos imito. Ainda transpiro o bálsamo fresco da memória como se da infância nos conhecêssemos. Ainda brinco às escondidas com a felicidade como era antes. Molho-te com passos de dança em cima de poças de água. Agora cuida do presente. Cuida do ar em movimento à velocidade de um sopro de vento. Poeira. Adubo. Seiva. Fermento. Cuidado com a mania de fabricar naufrágios fora de horas. Os espelhos não se rasgam com as mãos. Cuidado ao tentares domesticar a palavra infinito. O tempo não deixa gorjeta.

Bordei o luar. As ondas. A espuma. A areia. Por hoje termino aqui. Frente à praia. Apetece-me acordar noutro lugar da minha loucura e não mais pensar no assunto.