terça-feira, 30 de março de 2010

segunda-feira, 22 de março de 2010

BRISA DE PRAIA
disse:
Porque há voos aparentemente cegos que nos encaminham para a luz...

quarta-feira, 17 de março de 2010

Afiar cigarros com os lábios.
Deixar queimar o tempo até ao filtro.
Apenas hoje.
Hoje que ainda não somos memória.
Nem totalmente poema!

quarta-feira, 10 de março de 2010

terça-feira, 2 de março de 2010

segunda-feira, 1 de março de 2010

sábado, 27 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

360 graus de Amor
Não quero poesia nos meus poemas sobretudo aquela cuja pele é farrapo e cansaço e gume e pulso e âncora inútil ilusão. Talvez poesia seja só pretexto para arrastarmos as palavras connosco. Sim. Arrastar palavras pelo braço de uma frase e de repente apagar a frase e o braço e largar fonemas a pique de encontro ao coração metáfora. Talvez. Talvez não queira palavra nos meus poemas só por haver silêncios que nos quebram a fala. Talvez não queira poema na minha poesia só porque tenho coisas imaginadas em horas de não ter mais nada que fazer.
Poema não quer ser poesia quando te sentas à porta das palavras à espera que entre um verso e outro verso entrem pela janela frases perfumosas que não saem nem amar-te lada. Talvez o amor não queira ser diminutivo tão rapidinho tão ilusãozinho tão pouquinho até no tamanho. Talvez isto seja só a minha âncora farrapo palha falhaçada inútil amassar de pão que como em dias tão nossos como ninguém.
As árvores e as aves as sombras e o ombro que te encosto à cabeça. São protestos de te dizer em voz doce: Colmeia-me o silêncio pólen de poesia. Pedra-me sete pétalas na mão e atira-me o primeiro enxame que encontrares preso à ponta de um ramo. Dorme trezentos e sessenta graus de amor em vez de borboletar asas onde não tens queda para o voo. Alma-me a torto e a direito como uma manada de búfalos correndo desenfreada. Poema-me segredo ao ouvido num movimento leve de vai e vento. Chove-me com saliva enquanto a poeira não assenta e eu escrevo. Pesa-me tanto o sono dos teus olhos. Dá-me um grito para me calar. Dor-me. Não me doas o optimismo que dou ao mundo mesmo sabendo que o abismo cabe no intervalo entre duas vírgulas. Alegria-me com lágrimas de estimação inventa outra alegoria com barquinhos de ver passar. Luz-me clarão aceso pintado cor de areia. Rio-me com mar nos lábios para pôr as ondas no gerúndio. Caminha-me descalça com as mãos presas à vida onde sou ida e volta de uma viagem inadiável. Melodia-me com voz de vidro a partir mas antes de abateres a porta deixa dois ou três beijos para eu ir beijando monolabialmente.
És a sanzala. És o chão. És pulseira. És missanga. És brinco com versos pendurados. Brinco descaradamente sobretudo quando palavras não querem ser poesia. Brinco preguiça de poema com cara de quem acordou dum sono em que não dormiu ou brincou. Brinco. Mas nunca o mau gosto de trincarmos dias que passam sem deixar rosto no corpo. Só porque és o chão. És o caminho. Escrita. Escama. Esmola. Estudo para mim. Porém. Livra-me do livro dos teus queiciumes. Tu. És tudo. Sobretudo. Esperança.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Prosaria
À hora da poesia. Apago com luz estrelas que aguardam que o sol friolentamente se dilua no céu e faça luar o teu nome. Apago com palavras aquelas noites em que o sono não pega em ti e adormecemos de abraços dados cada um com o seu lugar marcado. À hora da poesia. Não faças distância perto de mim. Já não temos juízo nem idade para mastigar saudades.
À hora da poesia.
És tu o poema. Por isso engole estes versos que te dou sob a forma de tranquilizante para curar a arritmia dos dias feitos de sonhar. Negra-me na pele uma cicatrizte estampada com um arco e um íris. Endireita o caminho enquanto atraverso o poema de um lado ao outro e dá-me tempo para temperar a impaciência.
À hora da poesia.
Farei silêncio grelhado com pedaços de lua cheia. Farei carícias enlatadas e cachos de manga com sabor a fruta. Se restar fôlego. Farei crepúsculo cozido com fragmentos de nevoeiro. Oh. Não. Tudo menos crepúsculo. A última vez que fiz deixei queimar as horas dentro da panela. Quando destapei o tempo já não havia minutos que chegassem para namorar prazeres.

À hora da poesia.
É o teu alguém que acontece em mim como se não tivesse acontecido nada. É o idoso que vou sendo cada vez que a idade celebra mais um ano. É despertar com os teus sorrisos os sorrisos que ainda não ousas. São antídotos fora do alcance da fala. São botões de emergência preguiçosos. São braços entrelançados no peito.
À hora da poesia.
Escrever-te-ei em prosa para que possas tomar cada verso como um banho de cascata no coração. Respirar profundo o mar de hoje rente à linha do horizontem. Descascar a loucura ao ritmo de um grito definitivo e descalçar ilusões antes que seja tarde para recuperar a realidade.
À hora da poesia.
Quem te mandou a ti ensaboar o corpo com insultos de amor? Quem te rasgou poemas nos olhos apenas pelo simples facto de serem cascas de relâmpago colados à pele? À hora de bater asas na cara de outros voos. Quem te mandou assaltar trapézios com a altura de um céu? Quem me virá acudir se me acontecer um poema e tu não tiveres mais poesia para encher versos? Quem sacudiu lençóis de água à varanda da minha sede? Quem te vai emprestar os meus lábios quando os teus já não tiverem mais beijos para gastar?
Eu. Eu que te julgava um poema? Não! Tudo menos poemas. Hoje sei que à vista desarmada a poesia é realidade que acontece quando não se tem outra ilusão. Mas. O que importa escrever assim ou assado se conservo em mim a dádiva de ser alado como um pássaro voando na direcção correcta?

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Obrigado mana Loide por me emprestares a tua máquina!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

sábado, 2 de janeiro de 2010

Insolitário
Quando estiver quase a adormecer passem-lhe o sono pela torneira da água fria. Desatem o nó aos soluços que atravessam a garganta. Façam-no sentar à esquerda dos versos que mais não são que duetos com outras solidões. Risquem a pele os nervos a voz os pulsos com lâminas de encurtar distância. Quando estiver quase a amar. Não lhe ensinem amor como fazer de conta que se desfaz em conto de fadas.
Atirem-lhe contra a cara um balde cheio de poemas e mostrem-lhe com quantos beijos se faz a despedida. Tentem bebedeiras de palavras à toa e mostrem-lhe com quantos copos se enche uma noite vazia. Quando estiver quase a escrever. Interrompam-lhe as mãos várias vezes para que não remende as varizes do tempo. Não o deixem cozinhar o amor. Há de comer assim mesmo. Palavra a palavra. Até ficar cru.
Quando estiver quase a chegar. Destrancem fios de água doce em aquários doutros pássaros. Anestesiem-no com beijos que sobejam dos próprios lábios. Tirem a mania de reduzir nuvens a cinzas e esbofetear borboletas com candura suave de rapina. Atirem-no ao acaso com a força dócil das ondas e mergulhem este sonho feliz que se senta no colo dos versos como se um minuto fosse o instante lento que se senta segundos antes do despertar de quem não tem ainda o que sentir.
Oxalá a lua não o ponha a dormir até perder o sono das vistas. Oxalá o coração aguente mais um solavanco e espere tranquieto antes de mandar lixar os vários destinos que o destino é. Quando a voz lhe envelhecer nas palavras. Puxem-lhe os passos na direcção contrária do olhar. Lancem-no sozinho contra a cama e retirem as portas do casulo para quando entrar bater com o nariz no perfume das flores que não plantou. Quando estiver quase a descobrir. Destapem-lhe o futuro da frente e coloquem lá outra coisa que não seja passado. Leiam os gestos os dedos as mãos os braços a carne e gastem-lhe os caminhos de tanto andar a pé.
Quando cair num sonho feliz. Respirem-lhe os versos devacarinho para não doer. Deixem-no escapar tranquilo e quieto nem que seja por um triz ou por um triste corpo devoluto.
Lembrem-lhe que com as palavras não se brinca. A menos que seja para dizer coisas sérias.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Embrulhou meia dúzia de afectos adquiridos em segunda mão. Foi até à raiz da noite que não acaba em sono.
Não deu presentes. Deu ausências.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Com sequências

Deslouco-me de um lado para o outro sem sair da folha em branco. Do escrever soltam-se sílabas ambíguas lidas de baixo de água. Mas não afogo. Apenas um breve incêndio ao fundo do quarto. Tão só e mal iluminado como o sótão onde me visto de advérbios de medo e vogais com som antes do nascer da prosa.
Misturo palmas com as mãos e calço versículos em ebulição para ver se os músculos aguentam mais um quilómetro lá em baixo.
Descalço o pôr-do-sol da cintura para cima e quando não tenho no peito equadores perpendiculares ao eixo do coração estraengulo as palavras para que a diversão não se sobreponha nunca ao conteúdo.
Visto gritos que não me cabem na faringe. Experimento trocar a vaidade. Mas acabo quase sempre por vestir a roupa da noite anterior. Não tenho tempo para mudar todos os dias de mim. Às vezes visto o mesmo corpo durante o sono e o que escrevo repito para não cansar.
As horas continuam. Tão nuas como vêm em vão. A saliva coagula na boca. É pecado que se despe crepúsculo e se despede aurora.
Aproveito para revistar o quarto de uma ponta à outra. Devagar. Vasculho. Abro. Fecho. Desembrulho. Afasto a gula dos dentes. Deixo-me coagular lentamente nos abraços dos teus mimos como se fosses verdade.
Hoje quero permane-ser leve e dançar. Nem que tenha que agendar a despedida noutra data longe daqui.
Mas se porventura outra mão desarrumar o som da tua voz antes do nascer da prosa endireita o eixo do coração e dança com os meus passos. Sim amor. Dança. Devagar. Mas dança. Ou amordaça de uma vez por todas os meus tímpanos para não te ouvir ressonar os sonhos.
Com tantos poemas no armário não sei que versos hei-de vestir hoje.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Translucidez

Sai do meu poema. Exijo mais do que invaginar-me por ti adentro igual febre que espanca estoira sangra esfarrapa atordoa entra pelo quarto minguante sai pela culatra bate contra a cama atravessa os ventrículos e estremece a insónia como um terramorto. Vai. Mas só um pouco. E muda a cela do meu lugar. Euforia é quase sempre a continuidade de gritos engolidos pelo vazio quando ousas tapar a boca com beijos que não te pertencem.
Vai. Sai com esperança alívio alento e vigor mesmo que a saída não passe de um poema. Parte a linha do horizonte ao meio. Prende-te às nuvens e sobe mais. Fica até perderes o compasso a régua o fio o prumo e absolve quem por descuido arrendar amor instante efervescente cujo prazo de eternidade é mais ou menos zero.
Sai. Abala-me no peito. Alveja-te com o bem que me queres. Hei-de vasculhar pétalas até achar flor. Vou esperar pela água até encontrar sede. Hei-de procurar astros até encontrar céu. Vou procurar ondas até achar mar. Hei-de chamar-te com o meu nome até desencontrar o teu. Vou caminhar apé encontrar vestígios de inspiração na falta que te inspira a não escrever. Hei-de retirar aspas entre frases sem charme e dar-te mais vinte e quatro portas para entrares no meu poema. Chega. Não chores mais nisso. Mas sai. Brinca-me com palavras que não me impeçam de mastigar a tua voz até perder o sabor. Trinca-me os risos que se feriram a rir de nós por não sabermos chorar. Brincando. Apaga as pirilâmpadas transluzindo sombra. É tarde. Mas só um pouco.
É tarde para ficarmos do lado de fora da página. Entra pelos versos. Não vou forçar nem mais um sorriso na hora de dizer que te amo. A partir deste ponto final passarei da poesia ao acto. Vou ranger pedras umas contra as outras. Mas só um pouco. Afiar orgasmos que desaguam como bicos de lança. Mas só um pouco. Agitar respiração dentro dos pulmões destapar o sol com a peneira coar luz sob a cumplicidade das velas. Mas sou um pouco. Incomum. Como um de nós.