sábado, 7 de março de 2009

Espectro

Brincar o sentimento é brincar corpo a corpo com o espelho. E eu deixei. Não vou mais. Tenho os olhos nítidos como o azul fresco do céu. Já tenho idade para perder o juízo! Mas. Tenho os longes a povoar a saudade. É-me forçoso sonhar ao milímetro sem esticar demasiado as emoções. E se crio insinuações sentimentais ocas por dentro é porque recuso refilar com a infidelidade recíproca das nossas palavras destinadas à demolição. Se me ponho a nu. Quase correndo o risco de me expor. Descalço dos pés aos sentimentos. Coberto com ligaduras coladas à pele. Apalavrando ondulações rítmicas ao amanhecer. É porque mesmo onde não chego vou sempre com um lápis pronto a alvejar o papel.

A escrita é um antídoto eficaz para sobreviver à demolição dos dias.

Mas. Pronto. Chega de circo!! Chega de ferir as atenções dos outros na tentativa de dizer para além dos abecedários. Aqui. Onde me repito em cada disparate novo. Em cada zaragata íntima em fogo-de-artifício. Aqui. Lugar subterrâneo onde tento alegrecer a vida. Não sei em que silêncio começa um poema a ser Poesia. Aqui. Vou sentir a sério sem brincar os bocados de mim que não seriam inteiros senão atacados pelo humor. Enquanto puder. Permanecerei fiel ao delírio. A única razão que me leva a escrever mesmo com versos anteriores ao sonho. Aqui. Chegarei com uma hora de atraso em relação aos meus relâmpagos. Não vou mais sonambular o sono. Não regressarei enquanto não descobrir em que
silêncio começa um poema a ser Poesia. Espectro!

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Solicitude

Loucura-me o silêncio monossilábico que desce ao longo de mim. Cura estes dias que não são mais iguais a estes e desliga o tempo. Estou ausente. Fui amparar os caminhos que perderam os passos. Fui sorrir às escondidas dos aplausos que te insultam pelas costas.

Porque só deixarei de te amar se for em legítima defesa do meu coração!!

Cura-me a amnésia de te lembrar porque já fui. Fui renascer-me. Fui chafurdar na lágrima buscada à força. Sem ninguém ver. Quando me lembro de ti. Não me lembrei de nada. Remexi as efemérides do teu corpo desembelezado. Desatei-me e fui saborear o mar. Não fui.

Calaram-se-me os olhos.

Fui. Nestes dias em que chego a casa e me falta tempo e silêncio para fazer amor com as palavras. Fui vasculhar todos os poematórios encharcados com os teus soluços e só encontrei expressões digitais de solicitude.

Com ternura de dar poesia na boca e água fria por entre os pensamentos fui trocar de sono. Procurar uma vírgula que me aliasse à vida antes que a noite se transformasse em ponto final. Quando me lembro. Esqueci. Já é arde demais cá dentro. Arde tudo tão tarde. Tão verde de meter receios dentro do quarto de horas quadriculadas onde estou visceralmente vivo. Tarde para aquietar a cadência do voo sem amarrar as minhas veias à volta das asas das palavras. Mas apenas tarde para aquietar a cadência das palavras. Tarde para nunca ser tarde. Airosa.

Nunca as lembranças de mim que tardam vivem e se esfregam debaixo da terra e se contorcem no asfalto e sobrevivem no verde da espera que é tudo que parto e vejo desnascer é hoje que bato palmas endurecidas entre os dedos é amanha nuvem arrefecida parida gota a gota que não vem é nunca ser passado é continuar a presentear-me com o presente é apartar de ti a tarde que nos perde é palavra bonita que não se escreve com febre no acento circunflexo é pedir emprestado o céu é receber uma estrela e não devolver é ainda estar vivo sem ninguém ver é nunca ser noite nem tarde é adjectivo que sou quando me transmito aos outros por palavras meras que me desconhecem e estou amante dela e de mim e de mim sou curativo das núpcias em mau estado de conservação e habitar a solicitude de olhos vendados por um vendaval de ar fresco habituar o corpo a falar com as mãos desabotoar-te a timidez fazer um motim nos cobertores até as molas da cama estremecerem cansadas saciadas no desfôlego levemente de pedra e sono é ser pirâmide inacessível é ser prosa sinuosa. De pedra e sono. Cheguei. Agora. Por pavor vem atirar a limpo esta história. Atirar a limpo os rumores ressequidos de boca em beijo. Mas apenas de boca. O beijo são palavras que te dou na alma. Estas figuras sem estilo endiabradas graças à real aparência do profundo que não têm. Isso mesmo. Por favor. Omniapresenta-te!!

A solidão é uma sucessão de momentos cheios de vazio!

Mas. Sem medo na ponta da língua caminharei para mim em alvoroço. Guardarei a colheita deste bailado tão raro. Chegarei destemido e sem margens como as que delimitam o azul das águas. Podes pensar o que nem eu sequer sinto. Mas. Longe levarei o meu sorriso. Mesmo quando ir mais longe significar não sair daqui. Pois. Estou longe e para além de mim não há distâncias.

Agora. Por pavor. Deixa-me não escrever. Deixa-me ser aliterário. Beija-me ser às escuras o fulgor das tuas feições interiores. Sem ninguém ver.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A justiça não se injustifica por si. A sua ineficácia não escapa à responsabilidade do legislador passivo e servilmente obediente que cada um de nós é!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Os astros que outrora galoparam o céu migraram e esqueceram a noção de altitude e longitude no mapa que forjámos para entreter a nossa ingenuidade. Hoje consultei o horóscopo para me salvar do sono inesperado. Suspeito ter dormido tanto que quando chegar a hora não terei já sono para regressar. Estou predestinado aos trabalhos domésticos dos subúrbios do meu quarto. Sento-me e começo a lavar os pratos. Lavo o fumo dos cigarros com água e sabão. Limpo o cinzeiro onde arremesso pedras que me saem pela culatra. Remodelo a coloração da minha velhice ate à raiz do couro capilar. Guardo dentro de garrafas o som rouco da tua voz à velocidade do silêncio. Rapidamente. Começo a envernizar os móveis e as unhas e os lábios e as cicatrizes e as rugas e as pestanas com um lápis da cor do giz. Ainda mais veloz. Dirijo-me ao corredor. Atiro-me ao tanque à queima-roupa. Debruçado no cimento bordado em tons de nódoa. Dou banho ao passado. Esfrego o coração para lhe arrancar o cimento bordado em tons do que já disse. Afinal de contas foi nesse tanque onde estanquei a parte de mim que ao longo de uma fracção de segundo expressou contracções do imprevisível sono no qual o horóscopo é uma bússola avariada. Põe-te a pau com o crepúsculo coração. Não te desperdices descaradamente. Põe-te a pau com o vício incurável onde te encontras barricado.

O tempo é a distância de um abraço em cujos braços não se tocam.

Pudesse eu fazer arte da tua história pelo menos na parte em que partir não foi o começo das horas postiças. Quando já tínhamos chegado ao fim. E a ilusão nos impeliu a continuar a cavar o céu.

Mudo a água das jarras. Provo um trago. Bebo sem moderação até atingir a lucidez. Continuo demente entreaberta. Interrogativamente com passos em zigue-zague mas de olhos vivaços.

A loucura se for uma obra-prima muda de nome. É razão!

Cala-te boca. Não tarda muito terás a língua electrocutada num riscar de olhos. Cala-te. Onde está a explosão de beijos que dei ao espelho até ferir os lábios de cansaço? Onde está o açúcar aromático que me prometeste para polvilhar estes parêntesis que abro entre palavras que nunca se fecham? Não me provoques só realidade nem metáforas exageradas com insinuações grotescas de amores que não são. Prova-me a essência da ilusão primitiva. Reprova-me se o que faço é enganar o estômago fazendo palavras cruzadas que se cruzam com fotografias amachucadas que tento consertar com golpes de formosura.

Arrasto-me novamente até ao quarto. Modero a minha altitude perante a vida. Contemplo o tempo que me resta para terminar o poema. Tudo o que ficou por limpar. Os quadros, as molduras. As baratas. Aliás. As molduras baratas compradas na feira da ladra. As rugas no resto de sonho. O telefone que nunca me ligou. Os retratos em segunda mão. Os lençóis manchados de. Não vou dizer. As alegrias tímidas. A língua túmida fechada dentro da toca. Os tijolos que fazem de mesa. Os tapetes que uso para tapar os buracos. O cabelo esbranquiçado desmascarando a minha verdadeira cidade. Embrulho tudo dentro do bolso. E mudo de idade. Para onde não vou dizer.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A morte é caminho de ida e revolta.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Versículos

Adormece-me para sempre. Acorda-me de vez em quando para respirar o perfume dos lírios. Segura com os dentes os pilares sísmicos das noites tatuadas com a seiva da insónia. Seduz-me a alma e a intuição. Senta-te no colo das nuvens. Ferve os aguaceiros que sobem pelo céu acima. Lambe uma palavra. Absoluta. Atravessa o teu travesseiro. Vomita os rascunhos dela. Afaga os insectos que dançam à volta da lâmpada enferrujada no telhado frágil sempre perto de desabar em cima das nossas utopias convulsivas. Estou longe de remendar os alicerces da nossa única casa. Comigo. Mas estou perto de atirar sonhos usados contra as portas da casa. Comigo. Longe de entornar os fluidos dos nossos corpos no chão desta casa. Comigo. Porque ter-te-ia pedido. Porém. Perdoa-me por não te ter amado ontem como amo hoje a tua ausência. Por não teres escapado ilesa aos versos e versículos afiados deste desafio que é domar os capítulos do quotidiano. Não irei à tua procura. Nem que as palavras se afoguem nas marés. Os cromossomas da saudade se afoguem nesta gritaria hereditária. As fogueiras se apaguem em metades de um infinito vestido de lã terna iluminando com seus rasgos de luz ternos e macios o coração que bate e embate contra o peito. Está dito. Nem um só soneto pior que a ementa. Nada direi. Mesmo que não aceites o meu alfabeto. Semearei uma gota de água na tua sede. Plantarei uma floresta dentro de casa. Comigo. Nada direi. Não vais precisar mais do que metade do infinito para me ressuscitar. Foste. És. Serás. Próspera. Um caso ao acaso. Areia movediça. Áspera. Volúvel. À espera de um milímetro de oásis. E se houver lágrima. Atravessá-la-emos. Se houver uma casa. Vestir-me-ei com as tuas cortinas de lã. Dar-te-ei de beber água em pó. Juntos. Mudaremos as fraldas aos poemas melancólicos.
Porque tristeza é ler uma emoção e achá-la triste por ser bonita!
Porque nada direi. Porque nadarei até que as forças me percam os braços. De resto. Só isso. Juntos. Deitados à beira-amar. Enumerando as estrelas no tecto. Supondo dar um fim ao fim do que é doce e breve. Nada direi. Ainda que me obrigues a beber o mar de uma só vez. E que continuemos cúmplices do simulacro dos poemas que tens achado. Frígidos. Sem pontos erógenos. E sísmicos. E amnésicos. E pejorativos. E impulsivos. E só isso. Pois. Nada direi. Sobre este dormitório. Onde as paredes são húmidas de alto a baixo. Onde. Há bolor nos livros por ler. Onde. Lâmpadas enferrujadas criam a ilusão de luz. Onde. Construímos versículos de água em pó. À beira-Amar.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Numb - Portishead

No fim... A única maneira de apagar a luz é acender um fósforo e continuar a reconstruir a eterna claridade!!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

sábado, 6 de dezembro de 2008

Engoli a respiração. Travei as pulsações das palavras dentro da boca. Nutrido com serenidade. Faço um compasso de espera. Caminho em frente. Com passos de esperança. Acrobáticos. De costas voltadas para o caminho. Ilumino os retratos escritos nas paredes com a ponta do dedo indicador. Nutrido com teimosia. Ponho de lado o lado isolado da fábula de mim. Fora do peito. Luto com as palavras em contos e desencontros.
Escuto o vento correr connosco à vassourada em ilegítima defesa.
Invento. Mosaicos. Disparates. Ironia de dois gumes. Frases meio vazias. Saídas de emergência. Para lado nenhum. Útero em ventre de prisão. Solidão contagiosa. Cócegas que não sossegam as emoções como também cegam o olhar das noites.
E luto. Nutrido com paixão. Luto. Em litígio com esta pseudo intimidade. Com os búzios. Com as conchas. Com os oráculos. Com chás de aromas açucarados. Com chamas em tochas que ardem. Apagadas. Sim. De luto ou não. Luto nutrido pela vida. Alimentado pelas palavras. Absurdo e mudo. Sem essa tez negra de aguarela perpetuamente submersa à entrada dos sonos que não dormem. Sem tripé. Sem trapézio. Sem pára-quedas. Sensatez. Simplesmente. Brincadeiras que recriam verdades. No habeas corpus dos afectos. Indeferido. Mas em pé. De pés bem fincados no voo. De pé. Em queda que pára o tempo. Que dás ao relógio que não voltou.
Porque luto. Espremendo sobrancelhas e pálpebras até achar uma gota de água cristalina. Um meio à meio do infinito transitório. Quem sabe? Rajadas de artilharia poética inofensiva como dentadas de anjos. Mas. Se fizerem ferida. Mandem-me sete vidas de volta aos palmos abaixo da terra. Decretem o amor. Mas. Não sem antes me ensinarem o que fazer com ele. Omitam as núpcias infiéis deste acto de viver vivo.
E tu.
Dá à luz uma constelação. Divorcia-te de ti mesmo. Provisoriamente. Delicia-te com as tuas ilusões. E luta com o traje que despes o corpo. E sem te deteres perante a espessura dos muros. E sem tremer por teres pouco mais que a textura fútil dos teus textos. Advoga apaixonadamente esta breve fábula transitória. Faz com que a poesia chegue límpida e leve como uma dádiva. Sem peripécias. Prolonga a sentença irrevogável. O conto final. O ponto de partida para o outro lado. Insustentável. A nossa intimação íntima e última. Inevitavelmente. Suspensa numa pena que a todos suspenderá.
Ganha-a!! Mesmo que ao chegar repares que a saída não tem estrada
.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Projecto colectivo

Encontro de documentos poéticos no plural reunidos num livro de expressões singulares...

Apresentação:

Lisboa 5 Dezembro, Livraria Barata, 19.30h

Mais informações em: 22olhares.blogspot.com

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Lapso

Se por um só dia for...
Nada melhor que uma chantagem de afectos para encobrir todos os lapsos de fraternidade por desembrulhar.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Alcateia Imagética
Com
António Lobo Antunes

Quando cheguei já a porta estava aberta. Interrompi. Talvez um prefácio ou uma dedicatória para alguém. Presumo. Encontrei o mesmo silêncio definitivo. imperativo. Todos os ruídos eram semelhantes ao Silêncio. Somente quebrado pela fricção entre a caneta e a folha de rascunho. Nada mudou. A inquietante estranheza do "lugar de trabalho" no entanto, hospitaleiro e afável...

Sem caprichos nem sintómas visíveis de qualquer espécie de vedetismo. A conversa deabulou à volta de tudo um pouco. Tímida. Reservada. Mas fluente...

Com um sentido de humor paradoxalmente complexo e acessível.

Entre um sumo e uma torrada. Mais uma oportunidade. Ler o escritor sob um ângulo diferente. O que nos revela o homem. Toda a sua humanidade. Sinceridade. Autenticidade. O homem com situações reais. Comuns... O homem fora do livro.

Uma personagem humana admiravelmente humilde. Dotado de uma sábia e genial grandeza interior...

Não são só as palavras.

É o acto.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Narrativo
U
m horizonte cada vez mais sempre. Aqueles anéis de luz interrompidos quando. A mão que acaricia depois. Talvez uma alma circular que embate desde. O despertador que não trocou. Outra contradição íntima que entretanto.
Sempre. Sempre com palavras desarrumadas sobre a mesa. Quando. Quando o crepúsculo vier corrigir as linhas curvas dos meus passos. Em câmara lenta. Depois. Depois da raiz quadrada. Dois versos. uma quadra. De segredos divididos. Com uma máscara translúcida. Hipérboles. Tangentes. Ângulos vários sem métrica. Segmentos. Circunferências. Eixos. Hipotemusa de estranhos poemas. Números pares. Números divorciados e ímpares cada um par da sua solidão. Depois. Depois destes monólogos confusos. Com fusos horários trocados semeando ilusões nos calendários da memória. Desde. Desde o momento em que tentas excluir a exclusão sem perder a tua própria âncora. No fundo do mar. Entretanto. Entre tantos holofotes virados para o anonimato. Enquanto. Enquanto o semblante indiscreto de um olhar anonimata-me a luz do candeeiro ao relento de mim. Mesmo. Mesmo. Que a noite venha mastigar o barco de papel não vou cruzar os abraços. Na fronteira dos equívocos e gralhas. Enfrentarei a utopia com palavras de aço. Irei de boca em boca com uma explosão de tambores acústicos declamar. Pregar. Recitar. Narrar. O esplendor das nossas batalhas. Irei. Mesmo com uma alcateia de aranhas penduradas por detrás das vidraças. Vestígios carnais à tona da cama. Roupa por todo lado espelhada no chão. Espelhada nas escadas. Espelhos partindo. Fabulosamente pobres. Aquela cortina quase sem cor. Rente à alcatifa. Aliás. A cortina faz de porta. Espécie de biombo. Desde o nervo em que fui incapaz de dar um pontapé naquela porta de madeira enferrujada. Não. Apenas tentei afugentar uma mosca com a ponta do pé e sem querer derrubei as asas da fechadura dos segredos só de mim anónimos. desconhecidos. Os destroços em forma de alimento. A panela queimada por falta de esquecimento. A loiça para lavar a vontade espalhada na cozinha. A luz redondamente enganada por arrumar no tecto. O pano para varrer a preguiça de esfregar os olhos para te ver. No fim. Porque.
É festa-feira.
Amanhã será sábado o dia. Pois. Irei. Irei. Embora tímido nestas regras sem jogo. E Rei na longa paciência que é amar sem trono. Mesmo sem poesia nos bolsos para comprar o pão de cada verso. Mesmo desempregadamente no olho das ruas que me empregam partidas. Mesmo de prego em prego martelando as portas. Irei. Desocupado. Aprender mil línguas para te dizer um beijo. Em todas elas pedirei a absolvição da lâmpada lá em cima que te faz confundir as estrelas com as pedras. Sonâmbulas. Pedirei. Mesmo sabendo que em nenhuma delas te vou compreender.
Não vou cruzar os abraços. Vou excluir a exclusão. Voar alto. Sonhar baixinho. Antes que a noite chegue para mastigar o arco-íris de farrapos coloridos. E o vento regressar para me ressuscitar à chapada. Dizendo-me em tom de segredo. Acorda! Acorda meu filho. Acorda! Já é dia. Mas. Mas vocês enrolaram a corda à volta da língua um cronómetro antes do sono alcançar os olhos. Sim. Como vês. Só resta esta jangada. De papel e trapos. Mas. De aço como algodão. Algo tão delicado que as mãos dão em leveza e brandura para não quebrar a corda e o sono e a cama e a língua e o dia e o tom em segredo e as pedras e as estrelas e as máscaras e o arco-íris e a jangada e os papeis onde esqueci as vírgulas e a pontuação final nas nossas loucuras. Como vês. É no convés dela onde alvejo as ondas que anonimato cada vez que os martelos se recusam a absolver o silêncio enrolado na língua.
É do ar do fluxo marítimo que decifro o meu nome.
Porque não conheço sinónimos para o impossível.
Porque um verso são versões que os outros dirão.
Porque a grandeza da minha razão será sempre mais luminosa quanto maiores forem os lábiosrintos da minha simplicidade.

sábado, 18 de outubro de 2008

Paradoxa

A imagem é tudo. Para quem não tem mais nada para dizer.

Pois então. Palavra após palavra. Vou. Fico. Arrisco. Levanto-me. Esperanço-me. Com a última espera a morrer. Escravo um poema. Um verso. Cravo em cada mentira uma verdade. Breve. Nervosa. Com a flor à pele dos nervos. Grito. Alugo a alegria à hora. Encosto-me à jenela. Nela sinto o naufrágio das gaivotas. Em sobressalto. Susto. Cuspo-te pelos olhos. Cegos de promiscuidade. Obscenos. Como a invaginação fértil quase nocturna. Da paradoxa que me incendeia os pensamentos nas horas desabitadas e vagarosas e atrasadas e frias.

Porque de boas intenções está o inverno cheio.

Meu Deus!!! Dá-me vida dentro do sonho. Soluça-me os sentidos para me passar o susto. Não apagues a ilusão. Nem a bússola que me desvia. Sou de ti. Aquele que de ti é o mais teu. Cortei o revólver aos bocadinhos. Devorei à queima-roupa todo o teu vestuário. Num terreno baldio. Queimei as lágrimas. Palavra após palavra. Fui. Fiquei. arrisquei. Esperancei-me. Fui contigo pelos infinitos do teu horóscopo. Inútil. Inutilmente errado. Arrisquei. O descaramento de convocar um exército de sonhadores para simular um atentado poético na tua inspiração.

Porque escrevo. Para perder tempo. Porque vivo como quem desenha nos pulsos uma lâmina sanguínea suja de ciúme.

Porque amar ela é nunca me ter amado. Porque amar ela é anestesiar-me em todas as direcções dos meus sentidos. Amarela é a cor de mim e dos meus vestígios. Amarela é a cor do arco-íris que pintei nas folhas de rascunho vinte e quarto dias por hora à procura de uma ama onde deitar os restos do nosso cansaço entre quatro paredes oblíquas.

Para quem não tem mais imagens para dizer. A palavra é tudo!

domingo, 5 de outubro de 2008

Caminhos escritos à mão

Enfeitarás o coração com sentimentos presos fora do comum acreditando desesperadamente que é possível endireitar o destino com uma varinha mágica. Custe o que custar. Agarra-te. Não me deixes cair fora do túmulo do poema. Sacode-te!!
Escreve mais um copo para esquecer. Só mais um pouco desta loucura essencial ingerida aos tombos. Mais um caminho que termina amanhã. Só mais um corpo com sono de viver.
Quem ama assim as nuvens é inevitavelmente um dá dor de palavras. Eu sou simplesmente um dador de sangue em estado sólido. Custe o que custar. Não me deites fora. Deita-me dentro. O corpo é irrepetível por mais que o plastifiquemos. Uma desordem no equilíbrio dos pilares da ingenuidade e do tempo de ser sem tempo. Um chamamento vagaroso sem resposta para o fim. Custe o que custar.
Que não te custe muito não me deitar fora. Deita-me. Fora do comum. Fora da lei. Fora daqui. Do poema para fora das palavras. Das palavras para fora do silêncio. Do silêncio para fora da tua boca. Deita-me. Adia a ousadia da noite. Não adianta trancar os olhos. Adiantei os ponteiros do relógio para trás. Custe o que custar.
Serei sempre o primeiro a não entender nada do que escrevo. E o último a engolir estrelas escritas à mão.
Fora do comum. Fora deste fragmento autografado que te ofereço. Como se fosse uma fotografia de mais um sonho embrulhado na tua mão. Custe o que tiver que ser. Serei sempre um dá dor de sangue do universo do teu não querer. Custe o que custar. Se temos que sorrir então que doa de uma só vez.

Pedir aos pássaros que regressem contigo dos céus não é senão pedir em vão asas para continuar a cair!!

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Capítulos para reler de olhos fechados

Através do timbre admiravelmente autêntico de Luís Gaspar que amavelmente me emprestou a sua poderosa voz para atribuir sonoridade ao documento poético "
360 graus de silêncio" bem como ao depoimento intitulado "Hipérbole".

Para ouvir faça clique em:

"Lugar 91"

sábado, 20 de setembro de 2008

És-cada degrau de ti

domingo, 14 de setembro de 2008

Mil poemas abaixo de zero

terça-feira, 9 de setembro de 2008

domingo, 31 de agosto de 2008

Entre Parábolas

Um dia hei-de ser dono dos meus próprios acontecimentos. Hei-de acontecer como borboletas no tempo de regressar. Anoitecer num pedaço de luz. Acontecer-me na alegoria das coisas reais e na alegria das coisas poéticas.
Por enquanto. Faz de conta. Faz de conta que as palavras embora desmaiadas servem para servir para alguma coisa. Por enquanto. Conto-me contos antes de adormecer. Embalo versos. Algarismos capazes de medir o peso de uma voz com cálculos de tabuada. Por enquanto. Peço ao corpo para não falecer antes de mim. Porque entre parábolas e retalhos em véspera de poesia abundam vestígios de vida baseados nos factos verídicos das tuas ilusões.
Entre parábolas. O cataclismo. De repente instante de querer ser contente… Entre parábolas...
Quem nunca habitou um sonho por engano à beira-mar ou à beira do silêncio? Quantas toneladas mil de gente à mercê dos vazios rasgaram unhas mas aprenderam a soletrar o Inverno à distância de uma fotografia?
Paz de conta que estás em faz contigo mesmo! Como tu também eu trocaria um poema por uma flor. Os meus dois braços por um só abraço. Os meus lábios por um beijo. Os olhos por um olhar qualquer. Seja lá de quem por. For mim tanto faz. Faz de conta que o amor é o engano maior que as palavras. Estas palavras. Desordenadas e mordidas e encardidas e trocadas e erradas. Mas. Alegres em sua fértil e ténue exultação. Como tu. Trocaria. Esta casa. Esta cadeira. Esta cadeia. Esta cama. Esta repetição. Este equívoco de escrever sem seguir a gramática interior de cada sentimento.
Porquanto não escrevo línguas. Analfabeto-me em linguagens. O ponto de partida para entender os meus enganos não é a partida. Não é a quebrada ou a rachada. É a chegada. De quem nunca soube partir para sempre!
Partir. Um vidro. A alma. Partir. As cordas vocais de um grito. Partir seja lá para onde for. Seja lá com quem for. Seja longe ou preto. Seja de rosa ou azul a cor do mundo. Se já te esqueceste de nós. Se já aconteceste no calafrio que os lençóis não conseguem calar.
O espelho. Agora só. Onde me demoro a sair. O espelho. Agora sou eu a serenidade e o contentamento à porta do que ele reflecte. Agora só sementes. A terra. O sol. O sal e o sonho. Sou mar se mentes com mentiras que já não me fazem sorrir. Sou os impensamentos de alguém. Os tambores cardíacos batendo em voz alta no peito. Agora só. As borboletas. Pedaço de luz. Coisas reais. Coisas poéticas. Coisas. Contos que fazem de conta. Algarismos. Parábolas. Vestígios. Sementes. A partida. A chegada. Em véspera de poesia!
O espelho. Agora sou. Asas rastejando bem alto sobre a terra húmida que já não falo. Um dia hei-de ser. Uma noite. Um dia. Como quando o fotógrafo nos disse para sorrir e esqueci.
O espelho. Mostra-me sempre o lado imperfeito. Partes íntimas dos pensamentos que o corpo está proibido de exibir.

domingo, 17 de agosto de 2008

Frase do dia e da noite

Às vezes a única ausência que sentimos é a nossa!

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

meta-AMOR-foses

Manda-me de volta todos os beijos que não demos na hora da despedida que nunca existiu. Manda-me um só momento que sirva para resumir todos os instantes provisoriamente eternos, devolve-me a metade de ti que me pertence, a peça do puzzle que inventei para me entreter enquanto exploro os meus excessos à flor da pele, enquanto culpado me confesso do silêncio audível no interior da tua boca.

Poema?
Devolve os sorrisos que não partilhei com os teus lábios. Reaparece, grita-me a tua ousadia, cospe-me no rosto e no resto que sobra de mim, vomita os fantasmas que coloquei nos teus sonhos, arranca de mim os filhos que não me deste, morde, trinca, beija este corpo com bofetadas. Isto é amor. E se não for, então que se lixe!!

Que se lixem as rosas que não te ofereci, que se lixem as lágrimas que bebi do teu olhar, que se lixem as recordações na reciclagem da memória, que se lixe o vazio que escrevo, que se lixem os instantes provisórios, os beijos, a despedida, o puzzle e eu. Mas, por agora... imploro-te...
Apaga no coração as mil vezes que te matei sem te avisar e as vezes mil que não te amei e escrevemos utopias eternas nos lençóis!!
Poema?

Rasga-me os sentimentos que já não sinto, as pétalas, os ramos, o pólen, as raízes, deita fora todas as emoções que já não penso e guarda os espinhos para te acariciarem a epiderme e dorme sem que a tua boca cuspa uma lágrima, enfurece-te carinhosamente, corta em fatias essa overdose de esquecimento, anestesia o meu choro com beijinhos mesmo que não sentidos.

Poema?
Engana-me na única verdade que é acabar e regressar ao pó e quando estiver deitado, grita-me que não morri!!
Poisa em mim como uma tempestade de orgasmos organizados por desordem alfabética. Empresta-me o tempo que não tive para te dizer o quanto demorei para encontrar o ponto onde começa e termina a eternidade que se encerra numa hora onde não cabem sessenta minutos de realidade. Uma hora onde não cabe nada que não seja sublime como a tua doentia solidão enterrada no solo árido deste fragmento poético quase tão ofensivo e obsceno como o dono dele.
Meu poema... meu amor...
Empresta-me um sonho que não seja meu, uma mentira pequenina para me aliviar a espera. Uma mentira, dessas que não magoa mesmo quando se tratam de verdades violentamente incuráveis como uma despedida para sempre. Para sempre e por hoje, empresta-me um alfabeto diferente. Cansei-me de dar nas vistas sempre com os mesmos disparates. Cansei-me de ti que ingenuamente apenas serves para me fazer sorrir de nervos, tão assim, mais ou menos isto ou tão míope, que só visto. Tão ausente, tão desatento, tão alheio, tão filho da mãe como a vida, às vezes. É!!

A morte é a incurável certeza que nos mantém vivos!!

Se alguém duvidar, então ressuscitem-me deste sono, atirem a primeira, a segunda e a terceira pedra e deixem-me descansar na sétima noite da minha ausência para que no final possas perceber que é tarde para me proibires de sonhar...

E isto será sempre amor! Mesmo que as palavras doam, será, mesmo que não seja nada. Será, mesmo que pareça um desmaio voluntário, um recém-nascido à espera de um espancamento fraternal que lhe desperte o primeiro choro. Isto será sempre amor, uma teimosia tragicamente razoável que excede as utopias que deambulam à volta da tua imperturbável apatia. Será o que tiver que ser portanto, empresta-me uma catástrofe de miminhos, o desastre afectivo das tuas quimeras, devolve-me o alicate, o serrote, os martelos, as enxadas, a guilhotina e, já agora, os bisturis, preciso de uma cirurgia emocional, que arranquem de mim o teu suor e me deixem ficar apenas a esperança e o lapso de ser imaturo porque de real só me resta a discreta verdade da fantasia.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Poeticoterapia

Antes de folhear as flores pintadas de fresco. Arrumei os sentimentos no seu de vidro lugar para não quebrar mais nada. Mandei chamar os curandeiros da loucura para te ressuscitarem pelo menos na minha memória. Depois. Vasculhei o passado em busca do futuro sem temer a sobrevivência do presente. Remendei o coração com as linhas de um caminho-de-ferro. Desenrolei as pétalas substituindo-as por pérolas. Fiz-me vagabundo à lareira dos sonhos ao relento.

Depois. Muito além de nós dois. Descaradamente e sem asas nas algemas.

Cruzo-me comigo por mero engano nos intervalos do sono. Deambulo pelo quarto com uma caneta na mão pronta a disparar. Descarrego um poema apenas da boca para fora. A dor meço aos palmos como se fosse possível medir e calcular com a mão o comprimento exacto do teu odor. Meço cada centímetro do teu sentimento como quem se espanta por morrer pela primeira vez sem tempo para escrever a última prosa feita a base de extractos de poesia. Com alguns restos de nada e um pouco de pânico. Depois. Escrevo e escavo a terra. Atiro-me flores lá para baixo. Adormeço. Adormecendo a dor que não vem escrita no teu caderno de contos de fadas. Agora não me venhas dizer que é triste desejar loucamente manter os olhos escancarados à vida nem que seja à força.

Atreve-te a admirar o último raio de sol. A humildade nos gestos. A humidade nos olhos. Sim. Não vou ler o teu olhar. Também eu sou uma ponte a construir. Sobre a água. Ofende-me com os teus elogios. Também eu sou um analfabeto assumidamente em constante denúncia de mim. Impudicamente. Doente de esquecimento e infinito e esperança e carinho e de ti. E não de objectos como objectivos. O meu objectivo é o Ser. Ser inconquistável como um escândalo de sonho. Imperceptível como os ritmos quentes que fervem e remexem as ancas do mundo. E se quiseres despedir os meus murmúrios. Despe-te à vontade. Despede-te de tudo. Despe tudo e todos que o teu despeito levou. Despe-te de mim. Despede-te com aplausos. Depois... Tira tudo. Menos o coração. Vai. Vai-te em qualquer lugar nem que seja embora.

A tua doença é ter um abismo na alma perigosamente intransponível!!

Mas, antes de me desmascarares a flor pétala a pétala. Cura-me com o teu veneno. Não tenho vacina para nada!

Também eu sou um analfabeto da verdade que procuro.

Desconexos

Para quê complicar a essência do que é essencial para fazer um comentário?

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Subdoxos

A vida a dois é o formidável suplício que os solitários procuram!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Subterrâneo

A ver vamos se ainda és capaz de desabotoar o meu corpo ao meio e devorar cada guloseima sem vergonha na boca. Não sentir nem de mais nem de menos. Ser de uma ponta à outra um monte de sonhos por resolver. Nem mais nem menos. Certeiro na medida incerta do futuro. Cem vezes as que nada sentiste. Cem poemas desinibidos sem rimas nem versos. Cem flores. Uma a uma. Caindo do céu até ao centro do teu arquipélago subterrâneo. Uma a uma. Sem tirar nem pôr. Sem atropelar as estrelas nem marcar o lugar do fim porque no fim e ao cabo tudo acaba. Até os pormenores por maiores que sejam os saltos altos da vida e os outros que usas nos pés. Sem vergonha na boca. Cuspir silêncios. Cuspir a alma torcida no peito. Fugir pelos atalhos e desfiladeiros do sonho à superfície dos sentidos. Fazer acontecer as palavras até ao limite dos gritos escritos em voz baixa por ainda serem incapazes de assumir as emoções quando esteticamente do avesso. A ver vamos se terás fôlego para me trazer inspiração boca a boca de olhos vendados. A ver vamos!! Rever as nossas imagens sem escrúpulos a gatafunhar e a borrar as folhas verdes que enfeitam a minha trincheira despovoada de ti mas com ilusões maduras. De carne e osso. Porque a vida é uma imagem com várias imagens. E nem todas nos dizem o que perdemos enquanto procuramos…

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Hipérbole

Apaguem as minhas impressões digitais no corpo desta idosa meretriz com a qual entretenho a insónia nas noites em que nego a aceitação de mais uma negação. Arranquem-me das mãos o papel e a caneta e as emoções e eu calar-me-ei. Prendam-me a língua e as cordas vocais e as veias e os lábios e os dentes para não trincar nem mais uma palavra. Assaltem-me a inocência. Prendam-me que não sei o que falo.
Nego...
Nego o teu castelo com arame farpado à volta das muralhas para que depois do arrepio mais ninguém se atreva a te fazer salivar dos olhos. Amarrem-me ao amor e soltem os vossos beijos e saltem e sintam como sou frágil como uma rocha pois cansei-me de te lançar disparates agora simplesmente pretendo disparar um beijo à distância tendo como alvo a tua boca. Falem-me que não sei o que prendo no coração que nego. Levem daqui o papel e a caneta que eu me calo. Calem-me as mãos e os dedos ainda assim vou gritar que não quero acabar aqui. Que não estou fora do prazo de validade para me amares aqui. Que aqui o olhar é negro quando o adeus marca a hora que nego.
Levem-me...
Prendam-me que não sei quem me ama. Beijem-me. Arranquem-me daqui. Nego quebrar outra vez o espelho em estilhaços mil de ternura. Chorem-me com gargalhadas de entusiasmo se me quiserem acordar. Chorem-me às escondidas. Entre quatro paredes. Quando mais ninguém existir ao teu redor além de ti e do teu travesseiro. Quando não mais precisares de sorrir apenas para fazer ginástica facial. Ressuscitem-me. Não tenho por quem esperar. Espero por mim. Ninguém vai bater à porta. Batam a porta em mim. Irei abrir mesmo sem nada para dar em troca ao silêncio. Deixem-me entrar ao menos para procurar o juízo que perdi nas reticências da tua loucura. Para te salvar dos lapsos da minha memória e do tal romance que atiramos pela janela connosco lá dentro trajados de amantes à paisana. Negro o teu semblante dinamitado com algodão doce. As palavras que lanço no fundo negro desta página. Nego a lâmpada fundida das mentiras de ontem visíveis na verdade de hoje.
Rápido...
Prendam-me que não sei quem amo. Prendam-me. Virei a página mas o livro é o mesmo. Mudei o amor mas não o lugar do coração. Prendam-me cá fora. Não quero acabar dentro sem engolir por fora a revelação do que fui. Tranquiliza-te mesmo que não compreendas por que razão deixei as minhas impressões digitais na tua língua. Ninguém vai bater à porta. Ninguém vai perguntar a data de nascimento da tua solidão. O número de identificação dos teus sonhos. A matrícula do teu passado. O nome completo do teu coração. O estado civil dos tendões do teu pensamento. Ninguém vai. Enquanto me entreter a fazer festinhas ao tempo à paulada. Porque o tempo que engoliste sem saborear as horas e os minutos e os segundos mais ninguém vai usá-lo. Nem para pano de limpar o chão.
Não nego que me levem... Mas...
Prendam-me que não sei quem me chama. Amarrem-me ao amor e soltem aplausos. Soltem cânticos de esperança. Da maresia das falésias. Dos murmúrios dos rios. Do aroma das frutas que desfrutas. Das florestas e bosques onde há pássaros soltos em voos de nunca mais voltar pois há febre nas palavras mas é liberdade este amarrar de vida com cordas vocais. Mesmo que não concordes comigo. É livre este amar de não saber.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Prazeres imperfeitos

Se pedir a verdade é pedir demais, ao menos, injecta-me um tranquilizante antes de abrires o coração. Espreme as minhas lágrimas até ao limite do teu sorriso e ainda que chores, não será demais, entornar uma luz no caminho onde tiveste a primeira convulsão fraternal com ligeiros ferimentos numa esquina qualquer da tua solidão.

Se pedir as estrelas é mendigar demais, ao menos, seduz-me com os teus dedos com feições de lâminas a escrever sobre a minha pele - Que nada mais temos em comum senão o facto de ambos sermos diferentes.

Depois… Apaga a luz!! Vou procurar no escuro o astro dos meus prazeres imperfeitos.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Não me importo de viver a ilusão desde que a realidade nela contida me traga um golpe mágico de felicidade enquanto durar a embriaguez.
Em que lado da alma a comichão é maior?
No homem que não tem sentido de humor ou na mulher que já não vê sentido nenhum no amor?

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Prefácio

Por um dia não me vou esmagar contra as metáforas. Despir-me diante de personificações e outras figuras do mesmo estilo. Hoje vou lamber a crosta da tua língua. Perseguir os vestígios e as pegadas da tua voz a declamar o absoluto num tom soprano. Sequestrar o hóspede que tens alojado no coração e substitui-lo por mim. Com um pouco de amor. Um pouco de nós. Vou exigir a eternidade com entrega ao domicílio! Com um pouco de noite. Um pouco de sonho. Descalçar-te a maquilhagem. Aleijar-me na sombra trémula sem arrefecer os teus sentimentos à luz de vela. Com um pouco de lágrima. Um pouco de nós dois. Refugiar-me no prefácio da tua timidez. Aceitar-te suja de embriaguez com nódoas cosméticas no rosto. Aceitar a finitude ininterrupta da vida como quem nega ter nas mãos uma raríssima pedra de alcatrão que não vale um minuto da nossa despedida. Daqui a pouco. Não sei! Por um pouco tão pouco não sei se sobrevivo ao perfume das flores que plantei debaixo da minha cama. Não sei. Desconheço os adjectivos com os quais qualificas o meu interior quando retiro a maquilhagem e me desconstruo cá dentro em palavras sem piruetas nem malabarismos fúteis. Não sei e nem quero! Por um dia não me vou amachucar como uma folha de papel. Uma folha talvez com mais um daqueles poemas exagerados com antídotos infecto-contagiosos. Sim! Inevitavelmente. As palavras são contagiosas. Infectam com o seu odor, a sua fragrância. Por um dia?! Só se tiver mais do que vinte quatro horas! Mais do que sorrisos postiços. Mais do que este amor paralelo em promoção no mercado negro. Mais do que o abismo do dia seguinte. Tão pouco…

Posfácio

Hoje, com um pouco de espanto vou sobreviver no presente do indicativo do teu futuro. Com um pouco de verdade. Um pouco de nós. Abrir-me à essência dos factos e afectos. Apanhar delicadamente um susto do tamanho do dia-a-dia com o desperta-dor matinal. Estoirar com a ampulheta que nos abrevia o tempo que nos resta. A teimosia que nos arrasta. Os restos de poesia que nos restam. Com um pouco de nós dois. Brotar. Germinar. Em flor. Na lista de espera à espera um do outro. Um do outro com um pouco de amor. Um pouco, mas, que seja!!
Que seja amor. Um caso à parte. Parte de êxtase. Parte de mim com um pouco de ti. Parte tudo o que quiseres! E parte. Vai! Busca no teu posfácio o instante de ser. Que sejas! Cócegas que me fazes com o olhar. Que sejas! Gaguejos que tento dizer com as mãos. E te sentem tocar. Mas sigo cego o caminho que a vida é. Com um pouco de audácia. Com um pouco de mim. Arranhas as noites e a almofada. Transferes a saudade para o outro lado da cama. Dás a língua à palmatória em nome dos beijos que não escreveste no meu rosto. Antes de adormecer tomas vitaminas para o silêncio que te afaga. Ao acordar tomas analgésicos para a solidão que te vai escoltar ao longo dos vários desencontros. Com um pouco de gente. Com um pouco de nós dois a cambalear firmes com passos desarrumados. Daqui a pouco estarás curada. Pronta para outro!
Só nos resta recolher do chão os zeros à esquerda da fervura que nos envolve. O que importa isso? És um algarismo à esquerda do amor? O que importa? Quando há tantos outros limites com tão pouco tempo de ilusão? Com um pouco de alma. Um pouco de nós. O poema germina. Seja qual for a semente que te entrar pela emoção adentro.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

quinta-feira, 22 de maio de 2008

quinta-feira, 15 de maio de 2008

360 graus de silêncio

Atrevimento para esculpir vocábulos delicados, atrevimento para pintar fábulas vertiginosas calcadas por uma sólida crença de esperar por mim, retalhos que mordem as linhas tortas incertas por verdades que só Deus me pode revelar, ilustrações polvilhadas com pólvora verbal, episódios poéticos ainda que imperfeitos e descartáveis como uma verdade que amanha será outra coisa, fábulas paridas de uma inspiração febril e desobediente, fulgurante e impaciente...
Enquanto espero...
Não me falte nunca atrevimento e ousadia para cuspir palavras ásperas e incorrigíveis. Não me falte nunca um farol para me manter bem acordado, bem ancorado na realidade. Que não me falte nunca um poema na linha da frente do meu combate. Não me falte nunca a tua ausência nem as partes íntimas de um pecado qualquer sem piri-piri. Nunca me faltem as noites em que empresto bocadinhos de mim ao exercício maternal de dar à luz 360 graus de silêncio.

Mesmo que um dia cometam o delito de chegar tarde ao meu enterro ainda me encontrarão em vida. Interminavelmente próspero!!

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Paradoxos

Acariciar-te a sangue frio sem lubrificar a minha língua, domesticar os teus gritos no crepúsculo em brasa no teu olhar, ser vegetariano e antropófago na ausência dos teus lábios,

Quem?

Detectar os pontos essenciais do teu corpo protegido com arame farpado, arrancar as raízes que te prendem ao olhar choramingas com o qual desfilas nas ruas, armadilhar as tuas ilusões com um sopro de ironia e algum erotismo gracioso,

Quem?

Ensaiar um sorriso diante do espelho, ensaiar uma declaração de amor, sair de casa esquecendo o sorriso no espelho e a declaração no interior das cordas vocais e, de repente, ter que improvisar o espontâneo diante da realidade feroz esplendidamente fértil,

Quem?

Semear um relâmpago nas nuvens, agarrá-las pelo colarinho, esbofeteá-las até ressuscitarem as lâmpadas fundidas do teu talento para reinventar um novo amor,

Sim, quem?

Hei-de descobrir o endereço dos teus segredos ilegítimos, hei-de largar esta abstinência de ti e deixar-me desviar pelo vício de te proibir a respiração com golpes de poesia, hei-de passear por ti em sentido inverso, distribuir-te o melhor papel na encenação, coagir-te com meiguices a representar que não estás a representar quando a tua boca deita fora um beijo em minha direcção, sepulta-me os destroços da minha sombra, corrige os traços oblíquos do meu rosto,

Quem?

Logo pela manhã, pentear-te o cabelo, os delírios, as lágrimas, a solidão, a voz hesitante, o corpo todo despenteado, o sono descabelado, o pijama enrugado, logo pela manhã, não ser vulgar, ser obsessivamente cúmplice das noites remuneradas com a tua carência afectiva, trair-te com outra, sim, seduzir uma outra fracção de eternidade, atrair-te ao folclore de palavras com alma, vazias por dentro, fragmentar o medo de te ouvires a ti própria, impedir que em mim se infiltre o teu suor, a metamorfose dos teus presságios de esperança e…

Quem?

Quem te vai relembrar a razão da tua vida quando não mais tiveres razões para recordar a tua memória? Quem irá preencher a textura do teu vazio trágico quando de ti o mundo ficar cheio? Quem irá dar sangue aos teus versos quando a inspiração te fugir do peito? Tirar fotocópias aos sonhos demitidos a meio do caminho, quem? Quem vai? Ler as palavras contraceptivas que fizeste desabar no útero dos poemas, ler-te sonetos quando tu desaprenderes a ler com as sensações, quem? Adivinhar as tuas mãos quando os teus dedos se fecharem, quem vai olhar por ti o mundo quando os teus olhos avistarem o deslumbramento absoluto, quem te vai amar e desamarrar dos paradoxos deste silêncio audível nas folhas em branco?
Quem?! Quem és?