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segunda-feira, 21 de abril de 2008

Insónias

Atiro-me à queima roupa contra os cobertores. Os soníferos se recusam a me embalar o sono. A chuva continua a desmoronar-se em trapinhos de água doce sobre a minha cabeça. Temo acordar amanhã com os sentimentos constipados, mas, não tenho outra anestesia senão brincar às escondidas com a insónia. Tenho preguiça de morrer hoje. Tenho preguiça de ficar aqui deitado. À espera. Tenho preguiça de recuperar os poemas que encontrei sepultados na tua boca. Tenho-me de pé!! Sim, tenho-me na vertical. Fumo mais meia-dúzia de palavras às escuras. Espeto um prego em cada uma delas, mas, apenas e só, nas extremidades das sílabas tónicas. Chove. Cá dentro também. Corro para o exterior do quarto e adivinho um décimo do teu perfume nas fotos que ainda resistem ao gesto destemperado de te rasgar a ausência. Procuro os meus olhos no espelho. Recuo perante a tua omnipresença semi-nua. Refugio-me no interior de um envelope qualquer sem remetente e envio-me com destinatário desconhecido, publicamente anónimo.
Pois é, tenho o mau hábito de espiar as zonas quebradiças da tua alma e tu tens o mau hábito de me fazer regressar à vida quando os soníferos aceitam o embalo envolto na anestesia de água doce que a chuva faz cair sobre mim.