A fim que permaneça a Luz
Há 2 semanas
Escrever com as mãos cheias de silêncio
Agarrou o poema com os lábios e pronunciou beijos que nem sequer eram palavras. Endireitou a voz por dentro. Foi buscar fôlego ao fundo dos pulmões para pedir à chuva que tombasse aguamente sobre o chão que lhe fugia das mãos.
Lagrimático
Disseste das mãos que cosem rugas à flor da pele. As mesmas que multiplicam o pão de cada dia por um milagre à força. As mesmas que fazem lagrimografias a preto e branco à espera do arco-íris. As mesmas que curam os gritos adoecidos na tua voz “o infinito é um prazo demasiado pouco para nos escondermos nele. Perdoar-me-ás se este poema adiar por mais tempo a brisa do lado de cá do rosto? Perdoar-me-ás se as ilusões não servirem mais de desculpa para escrever? E se perderes o direito de me perder. Perdoar-me-ás se estas mãos não conseguirem poemaciar a tua pele? Seja qual for a resposta. Confesso. A verdade pesa mais por dentro do que na mão que a escreve. Confesso-vos. Poesiam-se-me horas em que distribuo a minha própria ausência por todos os cantos deste habitáculo. Na gaveta da cómoda. Nos retratos mal tratados. Na toalha de renda bordada por nós. Nos pires. Guardanapos. Chávenas. Prateleiras. Almofadas. Em tudo. Porque mesmo quando te encontro. Dos teus braços apenas recebo o abraço que ainda me deves. Faz o que quiseres com as palavras mas não me dês mais poesia para curar o silêncio. Há sons que nada podem em certos dias”. Respondi “perdoar-te-ei quando colocares um ponto final na eternidade”. Disseste das mãos que tentam distrair o mundo para lhe adormecer o peso. As mesmas que pesam no rosto como safanões que não se deixam ver de tão pequenos que são “calem-me a boca à chave e deixem a porta aberta para a inspiração não fugir. Durmam todos os meus sonos. Hoje estou disposta a passear a noite em branco como esta folha este lençol de água que me dorme em cima estas paredes esferovite estas frases poesientas este vazio intensamente cheio a que por vezes se dá o nome de poesia. Hoje sinto-me capaz de aparafusar o nome do mar à memória para não lhe perder as sílabas. Jurar nunca mais meter pombos-correio dentro de cartas aladas. Surdar os tímpanos só para não te ouvir de voz em quando. Empanturrar-me com o soro que me dás para alimentar a alma. A bem suar o suor da tua pele obscura. Agrafar os pés às asas que usas para desvoar. Dizer-te mudamente com todas as letras que não sou feita à imagem do espelho em que me lês. Dizer-te. Por mais tua que eu seja serei sempre minha. Por mais poema que sejas serás sempre um versículo escrito em prosa. Mas. Escuta. Deixa-me perguntar só mais uma coisa. Haverá outro modo de atear fôlego à tua respiração sem ser boca a boca?”. Respondi “nem todos os dias que nascem com palavras nascem com poesia. Mas a vida surpreende-nos sempre. Nem que seja no fim do poema. Até lá. Tentemos aparafusar as sílabas do mar à memória sem lhe perder a distância. Mesmo que no coração não haja espaço para mais ilusões e nos pulmões não tenhamos fôlego-de-artifício para atear à inspiração dos outros”.
"contextos" escritos por mim
Local: Biblioteca Municipal de Cascais
Agarra-me! As palavras doeram-se. Por agora o poema é o lugar onde adormeço quando não consigo escrever o sono. Agora é inútil engolir versos como se fossem beijos. Em seco. Em delírios que se curam à chapada. Em poesia que poisa em nós quando o mundo não está. Em carícias silvestres que te arranco das mãos para plantar na pele da água. Em poemas que falam quando os homens neles se calam a si próprios.
Errata Onde se lê agarra-me, deve ler-se h-rra-me. Onde se lê embriaguez, deve ler-se embriagaguez. Onde se lê alento, deve ler-se além-tu.
À hora da poesia.
És tu o poema. Por isso engole estes versos que te dou sob a forma de tranquilizante para curar a arritmia dos dias feitos de sonhar. Negra-me na pele uma cicatrizte estampada com um arco e um íris. Endireita o caminho enquanto atraverso o poema de um lado ao outro e dá-me tempo para temperar a impaciência.
À hora da poesia.
Farei silêncio grelhado com pedaços de lua cheia. Farei carícias enlatadas e cachos de manga com sabor a fruta. Se restar fôlego. Farei crepúsculo cozido com fragmentos de nevoeiro. Oh. Não. Tudo menos crepúsculo. A última vez que fiz deixei queimar as horas dentro da panela. Quando destapei o tempo já não havia minutos que chegassem para namorar prazeres.
À hora da poesia.
É o teu alguém que acontece em mim como se não tivesse acontecido nada. É o idoso que vou sendo cada vez que a idade celebra mais um ano. É despertar com os teus sorrisos os sorrisos que ainda não ousas. São antídotos fora do alcance da fala. São botões de emergência preguiçosos. São braços entrelançados no peito.
À hora da poesia.
Escrever-te-ei em prosa para que possas tomar cada verso como um banho de cascata no coração. Respirar profundo o mar de hoje rente à linha do horizontem. Descascar a loucura ao ritmo de um grito definitivo e descalçar ilusões antes que seja tarde para recuperar a realidade.
À hora da poesia.
Quem te mandou a ti ensaboar o corpo com insultos de amor? Quem te rasgou poemas nos olhos apenas pelo simples facto de serem cascas de relâmpago colados à pele? À hora de bater asas na cara de outros voos. Quem te mandou assaltar trapézios com a altura de um céu? Quem me virá acudir se me acontecer um poema e tu não tiveres mais poesia para encher versos? Quem sacudiu lençóis de água à varanda da minha sede? Quem te vai emprestar os meus lábios quando os teus já não tiverem mais beijos para gastar?
Eu. Eu que te julgava um poema? Não! Tudo menos poemas. Hoje sei que à vista desarmada a poesia é realidade que acontece quando não se tem outra ilusão. Mas. O que importa escrever assim ou assado se conservo em mim a dádiva de ser alado como um pássaro voando na direcção correcta?
Com sequências