A fim que permaneça a Luz
Há 4 semanas
Escrever com as mãos cheias de silêncio
Dirijo-me à janela. Isto é, abro a palavra na ânsia de me arejar por dentro. Avanço em direcção às margens sem olhar para os lados. Avanço com vontade de arregaçar as mangas e mergulhar Tejo a dentro mesmo sabendo que nem todos os rios sabem nadar. Avanço de versículo em versículo disposto a aceitar a vida, instante que nos convida a ser felizes, embora sejamos infinitamente provisórios. Avanço tentando pendurar a voz na corda vocal mais perto da língua, pois cansei-me por descarregar frases sinuosas sobre pedras como se a poesia fosse apenas uma grande mala carregada de cansaço. Cheguei. Agora, deixem-me terminar o poema, não sei por onde começar. Mas que poema? Que palavra? Que caminho é esse que nos faz andar de um beijo para o outro à procura de um abraço? Pode lá ser poesia uma coisas destas!
Agarrou o poema com os lábios e pronunciou beijos que nem sequer eram palavras. Endireitou a voz por dentro. Foi buscar fôlego ao fundo dos pulmões para pedir à chuva que tombasse aguamente sobre o chão que lhe fugia das mãos.
Lagrimático
Disseste das mãos que cosem rugas à flor da pele. As mesmas que multiplicam o pão de cada dia por um milagre à força. As mesmas que fazem lagrimografias a preto e branco à espera do arco-íris. As mesmas que curam os gritos adoecidos na tua voz “o infinito é um prazo demasiado pouco para nos escondermos nele. Perdoar-me-ás se este poema adiar por mais tempo a brisa do lado de cá do rosto? Perdoar-me-ás se as ilusões não servirem mais de desculpa para escrever? E se perderes o direito de me perder. Perdoar-me-ás se estas mãos não conseguirem poemaciar a tua pele? Seja qual for a resposta. Confesso. A verdade pesa mais por dentro do que na mão que a escreve. Confesso-vos. Poesiam-se-me horas em que distribuo a minha própria ausência por todos os cantos deste habitáculo. Na gaveta da cómoda. Nos retratos mal tratados. Na toalha de renda bordada por nós. Nos pires. Guardanapos. Chávenas. Prateleiras. Almofadas. Em tudo. Porque mesmo quando te encontro. Dos teus braços apenas recebo o abraço que ainda me deves. Faz o que quiseres com as palavras mas não me dês mais poesia para curar o silêncio. Há sons que nada podem em certos dias”. Respondi “perdoar-te-ei quando colocares um ponto final na eternidade”. Disseste das mãos que tentam distrair o mundo para lhe adormecer o peso. As mesmas que pesam no rosto como safanões que não se deixam ver de tão pequenos que são “calem-me a boca à chave e deixem a porta aberta para a inspiração não fugir. Durmam todos os meus sonos. Hoje estou disposta a passear a noite em branco como esta folha este lençol de água que me dorme em cima estas paredes esferovite estas frases poesientas este vazio intensamente cheio a que por vezes se dá o nome de poesia. Hoje sinto-me capaz de aparafusar o nome do mar à memória para não lhe perder as sílabas. Jurar nunca mais meter pombos-correio dentro de cartas aladas. Surdar os tímpanos só para não te ouvir de voz em quando. Empanturrar-me com o soro que me dás para alimentar a alma. A bem suar o suor da tua pele obscura. Agrafar os pés às asas que usas para desvoar. Dizer-te mudamente com todas as letras que não sou feita à imagem do espelho em que me lês. Dizer-te. Por mais tua que eu seja serei sempre minha. Por mais poema que sejas serás sempre um versículo escrito em prosa. Mas. Escuta. Deixa-me perguntar só mais uma coisa. Haverá outro modo de atear fôlego à tua respiração sem ser boca a boca?”. Respondi “nem todos os dias que nascem com palavras nascem com poesia. Mas a vida surpreende-nos sempre. Nem que seja no fim do poema. Até lá. Tentemos aparafusar as sílabas do mar à memória sem lhe perder a distância. Mesmo que no coração não haja espaço para mais ilusões e nos pulmões não tenhamos fôlego-de-artifício para atear à inspiração dos outros”.
"contextos" escritos por mim
Local: Biblioteca Municipal de Cascais
Agarra-me! As palavras doeram-se. Por agora o poema é o lugar onde adormeço quando não consigo escrever o sono. Agora é inútil engolir versos como se fossem beijos. Em seco. Em delírios que se curam à chapada. Em poesia que poisa em nós quando o mundo não está. Em carícias silvestres que te arranco das mãos para plantar na pele da água. Em poemas que falam quando os homens neles se calam a si próprios.
Errata Onde se lê agarra-me, deve ler-se h-rra-me. Onde se lê embriaguez, deve ler-se embriagaguez. Onde se lê alento, deve ler-se além-tu.