terça-feira, 2 de julho de 2013

Eternidade provisória


Cansado de inventar silêncios na boca dos outros, pegou na vassoura. Varreu os pensamentos fora da validade. Esfregou as manchas de insónia, cor de sol, coladas à página onde dormira. Abriu as janelas na ânsia de se arejar por dentro. Lá fora, ruídos. Motores à velocidade de engarrafamento. Dirige-se para o quarto, a fim de verificar se ela ainda estava deitada. Fotografou, do percurso, os passos que foi largando. Ao chegar, reparou que continuava deitada… a espreguiçar restos de sono por entre os lençóis.


Soergue-se, tentando afastar o sono do rosto com as mãos, dizendo: “Se conseguires fotografar a minha ausência, deixa os fragmentos deste amor no cesto da roupa suja. Quero libertar-me dos anos em que escondi as palavras debaixo da língua por medo de algumas verdades – ter coragem para ler o teu fado em voz alta, sem receio de deixar cair as cordas vocais pela garganta adentro. Sim, hei-de vestir-me de novo, limpa e lavada da cabeça aos sentimentos, nem que seja à força de tanto esperar. Tal como ontem, voltei a estar ausente enquanto fazíamos do amor um palco de diversão. Porque, acredita, a distância é a maior proximidade que tenho de ti.”


Aquela revelação atingiu-o de forma abrupta. Demorou alguns segundos até recuperar o fôlego. Sem saber exactamente o que responder, num tom desengonçado mas determinado: “Vai! Pega nas tuas coisas e desaparece de uma vez por todas! Não vou regatear nem mais um beijo! Os que te dei, alguém tos há-de roubar. E quando um dia te lembrares de olhar para trás, verás que os melhores parágrafos da tua existência foram escritos por mim. De que te servirá, frente ao espelho, tentar preencher a lápis um olhar vazio? Não me apetece fotografar a tua ausência. Fazer de conta que o passado não foi mais do que rascunhos interrompidos por falta de inspiração. Sabes, amor, não me importo de repetir versões diferentes do mesmo erro desde que a última versão me traga a bússola que me conduza a um amor de verdade. Este é apenas uma tentativa. Tem calma!”


“Tem calma?! Desde quando a última versão traz mais verdade?” Descalçou o tapete por baixo dos pés. Afastou-se. Andou de um lado para o outro, parecia querer fintar o tempo com passos sem direcção. Por fim, tombou o corpo sobre a cama como se fosse uma mala carregada de cansaços. Voltou à carga:


“Muda de página, homem, muda! Às vezes sinto-me inocente apesar de todas as ilusões provarem o contrário. Distribuo a saudade por toda a casa. Nas gavetas da cómoda, nos retratos que enfeitam as paredes, nas toalhas, nos pires e nas chávenas penduradas nas prateleiras. Por todo o lado. Ouviste? Por todo o lado! Até mesmo aqui. Porque quando te chamo, dos teus braços apenas recebo um abraço eternamente devedor. Portanto, não contes comigo para encobrir os teus lapsos de imaginação. Faz o que quiseres, não me dês poesia para curar o silêncio. Há sons que nada podem em certos dias. Apetece-me qualquer coisa além de nós. Quem sabe não haverá uma eternidade do tamanho dos teus olhos. Hoje é um daqueles dias em que, aconteça o que acontecer, estou disposta a passar a noite em claro, envolta em lençóis de insónia. Podes não acreditar, mas estou inclinada a empanturrar-me de mimos, seja de quem for. Haverá outro modo de atear fôlego à tua respiração sem ser boca a boca? Vá! Responde! Se não tiveres nada a dizer, pelo menos saberei que não fomos feitos um para o outro e muito menos para os outros que partilharam connosco esta mentira. Custa muito dizer isto, mas todo o amor que te dediquei não passou de uma estratégia para me afastar daquilo que já não suportava – a solidão.”


“Sossega… às vezes, também me pedem para manter os pés na terra. É por isso que os mantenho, há anos, assentes no sonho. E, confesso-te, não gosto de ilusões… salvo quando o arrebatamento nelas contido nos ensina o caminho de volta à lucidez. Há muito que me tentei esconder da realidade, na tentativa de ser livre. Deixa-me ser feliz em qualquer lugar, apaga este esboço! Risca-o. Reescreve-o, se necessário for. Mas não te esqueças de voltar ao princípio – é insuportável imaginar que poderei acordar sem ti ao meu lado.”


O conto aproximava-se do fim. Faltavam poucas linhas. Ambos o sabiam: por mais que tentassem adiar a eternidade, nas folhas, ficarão sempre alguns restos de tempo para viver. Vírgulas fora do lugar, frases inconclusivas, parágrafos mal escritos, rasurados e emendados. Na maior parte das vezes, rasurados, amachucados e atirados ao caixote do lixo como rascunhos. Tentativas de ser feliz.


Disfarçadamente, ela saiu do conto pela porta das traseiras. Consta que entrou na realidade. Nunca mais ninguém a viu, nem eu. Ele sorriu à vida em sinal de reconciliação, largou a vassoura, fechou as janelas e nunca mais inventou silêncios na boca de ninguém. Agora inventa beijos para os que não têm tempo para dar, pois enquanto a vida nos convidar a ser felizes, nada, nem este relâmpago eternamente provisório, poderá atingir-nos com um ponto final

domingo, 30 de junho de 2013

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Prazo de validade: A nossa união
a cada dia que passa é um facto ausente

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Fuga: Ao tentar correr
desequilibrou-se
deixou cair a pressa no chão

domingo, 2 de junho de 2013

sábado, 25 de maio de 2013

Insuportável
não é encontrar as palavras certas para matar o silêncio, mas dele ressuscitar para endireitar as palavras erradas

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Afónico: Não sei onde guardei o lugar da tua voz

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Visão: Engolir a paisagem com os olhos
sem pestanejar

domingo, 12 de maio de 2013

Mercado negro: Vender poesia
regressar vazio com os bolsos cheios de ruínas

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Reencontro: Transportar o peso de duas distâncias debaixo do mesmo abraço 

terça-feira, 16 de abril de 2013

quinta-feira, 21 de março de 2013

terça-feira, 5 de março de 2013


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Voar à lentidão da luz
Depois ser o barco que te conduz ao fundo do coração

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Não contaste a história do homem que transformou os teus olhos em insónia, nem falaste acerca dos poetas que constroem castelos em poemas de areia.
Mas se esta noite não conseguires empurrar o sono para dentro, vou abrir a mão numa página em branco. Contar-te-ei a história de um homem que não sabia escrever poesia e guardava minutos de silêncio em baixo da tua respiração.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Se pensas que a maneira mais eficaz de afugentar a saudade é atirar-lhe pedras, enganas-te, as horas que nos pertenceram ainda vão arder muitas vezes nas imediações do teu pulso e em tudo, sem excepção, hás-de encontrar o vácuo imperfeito das promessas inúteis

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Arrasta-me por água abaixo mesmo que seja só a distância que vai da torneira à sede, nada-me por dentro,
oceaniza-me 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Quantos incêndios vais apagar até descobrires que o melhor a fazer é cada um de nós seguir o seu próprio vazio?

sábado, 12 de janeiro de 2013

Não pode haver amor, sem este beijo que se incendeia, que se exalta, e no entanto, baloiça de um lábio para o outro até se transformar em poesia

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Deitar-me ao teu lado para ficar ao mesmo nível do teu sono e dizer-te, com palavras simples, o silêncio de uma boca em grito

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O que é um poema, senão um corpo irreversível sob a forma de espuma?

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012


domingo, 16 de dezembro de 2012


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

domingo, 4 de novembro de 2012

Pousar o sono sobre as pálpebras
Amormecer

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Colocar aspas entre os lábios
Há beijos que não nos pertencem

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Atira-me
esse adeus de pedra escondido debaixo dos teus gestos

domingo, 28 de outubro de 2012

E se o mar amadurecer não te assustes ao encontrares o meu corpo a boiar nos teus braços

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Longe é voltar atrás
comprar o infinito e receber troco de folhas de Outono

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Longe é voltar atrás
compreender que escrever poesia não é apenas bater palmas com as mãos cheias de silêncio. É antes sepultar esse mesmo silêncio no fundo da garganta e, apesar de tudo, seguir em frente

segunda-feira, 15 de outubro de 2012


quarta-feira, 26 de setembro de 2012


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Ao início da manhã, no Jardim da Estrela, uma borboleta caiu do oitavo andar dos meus passos. Foi salva pelo bater de asas do vento.

domingo, 16 de setembro de 2012

Leitor de poesia liderou, no passado dia 21 de Março, uma manifestação com a finalidade de reivindicar os direitos dos poetas amadores. A manifestação surgiu na sequência da detenção do jovem suspeito da autoria dos crimes de polissemia e ofensa à integridade estética da Poesia. No entanto, dos factos apurados, não emergiu qualquer indício da prática de actos susceptíveis de configurar uma contra-ordenação. O suspeito já se encontra em liberdade. Ficará porém vinculado, nos termos do artigo 7º do Código da Expressão Poética, ao cumprimento das seguintes obrigações e regras de conduta:  


A)  Solicitar Livros de Reclamação em lojas de poesia e indemnizar os leitores com palavras em forma de sorriso;

B) Não fazer uso de figuras de estilo para fins cosméticos, mas escrever de modo rigoroso a fim de promover o exercício introspectivo dos leitores;

C) Não praticar actos discriminatórios contra as palavras, em razão da sua imagem, paladar, aroma, sonoridade ou textura;

D)  Não praticar actos de floreado; 

E)  Ter sempre em consideração, o efeito-bússola que a poesia provoca no coração de quem, por lapsos de memória, esqueceu o caminho do primeiro beijo;

F) Remover os restos de música acumulados no interior dos meus ouvidos, no prazo máximo de 365 melodias.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O aumento do preço da água do mar tem provocado uma onda de protestos por parte dos consumidores de poesia.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Um rio tropeçou numa gota de água e caiu ao mar. Foi salvo graças à rápida intervenção de um cardume que em cerca de dois minutos chegou ao local, e deu início às manobras de riospiração boca a boca.

sábado, 8 de setembro de 2012

Pássaros acusados de silenciar as ruas durante a noite, declararam agir em legítima defesa dos beijos que a tua boca atropelou nos meus lábios. Tudo indica que não agiram sozinhos. As montanhas ainda se encontram a monte.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

E espreitaste pelo buraco da palavra
Quiseste ler as partes mais íntimas do poema

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Rio não é corpo de água à beira do infinito
é lágrima debruçada sobre janelas de água doce

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Deambular-te de um lado para o outro 
como quem esqueceu o caminho do primeiro beijo

domingo, 22 de julho de 2012

Parar de escrever a tempo de não sujar as pedras com nódoas de palavra 

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Regressa-me
Como se viesses salvar o rio abandonado no fundo dos meus gestos

segunda-feira, 2 de julho de 2012


sábado, 2 de junho de 2012


domingo, 20 de maio de 2012


Heduardecer

Cose a linha que se soltou do horizonte e caiu levemente como se fosse um corpo de água vazio, um fruto. Ora a Deus para semear cócegas na tua pele para que possas acordar todos os dias com mil sorrisos pendurados nos lábios. Ajuda-me a dar paladar às palavras e a fazer de mil bagos de arroz uma imagem para mastigares letra a letra.

Se um dia soltares a fé que se fez refém em cada sílaba do meu nome, deixa-me Heduardecer o pão que alimenta e leveda silêncios com requintes de poesia. Porque hoje, amor, fica a saber, ao entrar nesta casa onde fizemos do relento o nosso esconderijo, não encontrei a raiz, o tronco, os ramos, e a árvore plantada à sombra do que fomos.    

Compreendi pela primeira vez que o poema, ao contrário do que alguns pensam, não é fruto para comer. É fruto desta ilusão temporariamente infinita cujo corpo e alma são pedras por amadurecer.  

terça-feira, 8 de maio de 2012

quinta-feira, 26 de abril de 2012

sábado, 21 de abril de 2012

quarta-feira, 28 de março de 2012

Poemosamente


Isto não é poesia
é querer sair com os pés cheios de dança
e não ter um par de caminhos para calçar
é arriscar palavras
onde incêndios aguardam amormecidos
a hora de acordar  


Isto não é poesia
é levantar o teu sono com as minhas próprias mãos
e deixá-lo cair cuidadosamente no meu ombro


É ter uma multidão de versos
à volta da boca
e não ter sequer um beijo para declamar

Estar rodeado de nada por todos os lados
e no entanto
reconstruir os remos
e rimar a favor do vento

Isto não é poesia
é o lugar onde o teu sono acaba e a minha pele começa
quando os batuques arrefecem
e gritam contentes a ausência das mãos

O grito
por vezes é apenas isso  
silêncio
coagulação do som

Isto não é poesia
é o acto de fotografar uma pedra lançada ao ar
no exacto momento em que ainda é vertigem

Acender nuvens
para que o céu
no seu profundo e ardente vazio
se incendeie também
em gomos de chuva

Incêndios não amam
são inflamáveis

Não fales destes beijos
pendurados  nos lábios da luz
nem desta paisagem que levo para casa
debaixo do braço
não fales

Escuta
não sou dos que recorrem à escrita
por falta de senda para percorrer a realidade
escrevo com poemeiras intenções
a intenção de existir
enfrentar o mundo
com um sorriso de combate

Poemosamente
profundo

quarta-feira, 21 de março de 2012

sexta-feira, 16 de março de 2012

segunda-feira, 5 de março de 2012

Envelhecer
com infâncias à volta da memória

domingo, 26 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Escrever poesia é bater palmas com as mãos cheias de silêncio.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Levantar o corpo vestido de cansaço, passar a fome pelos lábios de cada beijo, sair de casa à pressa com os olhos enrolados em sono, seduzir as horas para que demorem só mais um pouco e, no entanto, manter os pés bem assentes no sonho!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Acorda cedo para chegares tarde ao desemprego

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Guardar algumas frases debaixo da língua é talvez a melhor forma de não arruinar a beleza do que se escreveu antes de haver linguagem.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Presumivelmente futuro até que o nada prove o contrário.

domingo, 5 de fevereiro de 2012


sábado, 4 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

As chaves ganharam asas. Por isso não ouves o tilintar dos passos quando me aproximo do teu pensamento.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Escasso infinito

Quando os gestos regressarem ao local das mãos, descasca gotas de água como se fossem gomos de amor abandonados à beira da cama.


Não pendures palavras em varandas de papel enquanto não aprendermos a despentear o sono com pingos de ar fresco.


Quando os gestos regressarem, por favor, abre as mãos e multiplica por trezentos e sessenta graus de infinito, o prazo que te deram para ser feliz.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012