terça-feira, 1 de março de 2011

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Incólume

Agasalha a memória com lençóis de papel para não constipar a imaginação. Põe palavras ao lume e quando o poema começar a fer ver nos teus olhos troca-o por um doer mais brando e espalha cascas de ilusão em cada estrofe. Quero escorregar de sono e cair ileso nos teus braços. Mas por enquanto.
Por enquanto borboleta-me. Faz-me pousar lentamente sobre a paisagem que a si própria se vai desenhando no ar. Andorinha-me num voo sem peso. Fica comigo só mais um poema. Só mais um pé de aço de lenha. As asas. Essas não deites fora se na boca ainda tiveres bocados de solidão à procura do endereço dos meus lábios.

Aliás. Deita tudo fora! Sozinho-me bem sem ti.
Quero lá saber dos gestos suculentos com que despias noites enquanto me amordançavas os sentidos de um lado para o outro. Quero lá saber das vírgulas que não coloquei no coração por falta de espaço.
É o teu sonho que me interessa!
Mas sabes uma coisa. É engraçado como todos os caminhos se apagam quando os pés não sabem que direcção seguir. Do que dissemos só consigo lembrar este amo-te guardado entre a garganta e a voz que antecede o grito. Que antecede a chuva quando queres beber palavra e não encontras o copo onde largaste a sede. Quando queres digerir verso e não descobres o lugar onde a fome se esconde. De tudo o que dissemos. Ó amor. Só lembro vírgulas e no entanto ainda falta quilómetro e meio de ternura para que a vida se torne última morada das nossas memórias.
Se um dia nos envelhecermos um do outro. Pelo menos lembra-te que até as nuvens adormecem quando o peso do sono é superior ao da razão do choro. Lembra-te. Ninguém atrasa tempo a não ser para iludir os anos que traz diluídos no corpo. Ninguém boceja beijos que não deu se na boca tiver bocados de ilusão à procura de outra boca.
O agasalho emprestá-lo-ei a quem não tiver onde habitar o seu próprio vazio ao cair do sonho.
Descobre-me. Não te preocupes se a imaginação se constipar numa página em branco. Incólume.
Ninguém chega ao amor senão pela poesia!

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Quando te perguntarem o que é a poesia. Responde-lhes com poemas que tenham versos curtos. Que sejam límpidos e diáfanos e que não cedam a metáforas inúteis em pose de bom gosto!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

domingo, 23 de janeiro de 2011

sábado, 22 de janeiro de 2011

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

sábado, 8 de janeiro de 2011

domingo, 2 de janeiro de 2011

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Omnipoético
Agarrou o poema com os lábios e pronunciou beijos que nem sequer eram palavras. Endireitou a voz por dentro. Foi buscar fôlego ao fundo dos pulmões para pedir à chuva que tombasse aguamente sobre o chão que lhe fugia das mãos.

Ao regressar. Subiu como os pássaros ao telhado das árvores. Lançou asas pela distância íngreme que vai do sentimento à escrita. Depois. Ajustou o sono ao fuso horário do infinito. Com a ponta dum fósforo construiu diques imaginários contra a insónia e pendurou-a por fios de lume para não se apagar.

Dezembro-me como se fosse hoje. Flocos de lenha derretiam-se na lareira tentando calar o frio. Lá fora os ramos sacudiam o vento perante a dança inquieta das folhas. Assobios pingavam em forma de música como se cada gota pudesse remunerar o coração com sopros mágicos de lume. Em troca de nada.

Leitor. Pergunta-lhe agora mesmo em que parte do corpo a ausência das palavras tem a força de uma multidão? A que distância os gomos de neve se deixam morder pelo sol quando nos faltam garfos para levar o sono à boca? E já agora leitor diz-lhe que o poema não se agarra com os lábios. Que os nossos passos embora dançados de cansaço hão-de sacudir sorrisos em véspera de poesia. Em toda a parte.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Palavras são coágulos de imaginação... Não servem senão para dar resposta ao instante que nos corresponde.

domingo, 7 de novembro de 2010

sábado, 6 de novembro de 2010

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

terça-feira, 2 de novembro de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Finituridade   
Se há coisa que não desejo a ninguém é descascar as nuvens como se laranjas fossem gomos de chuva descendo pela espinha dor sal do mar.

Isto é só poesia. Eu sei.

Morde na minha boca as palavras que se calam nos teus lábios carmudos. Água-me a sede desse doer tão doce. Sim. Isso mesmo. Molha-me. Traz-me um copo cheio como se tivesses soluços no olhar. Lavra. Cultiva-me. Ser penteia os sentimentos. A respiração e a folha em branco em cima da mesa. Não sei porquê. Acho-te mais poética com o cabelo desarrumado.

Enquanto os braços se renderem aos sonos que trazes colados no rosto.

Apanha as pegadas espalhadas pela casa. Amor. Pega-me ao colo com a força da tua vontade. Não quero amarrotar o chão com os meus passos. Se os caminhos continuarem a passar de que nos vale ter tanta pressa? De que me vale. Amor. Tocar a sílaba tónica por entre os dedos ou manchar lençóis com silêncios em contrabaixo ou chamar pelo teu corpo para me ajudar a desmanchar a cama?

Enquanto escrevo isto.

Contagia-me com as tuas asas. Voa-me todo de uma vez ou cai a pique no poema côncavo que cavo aos poucos. Porque se há coisa que não desejo a ninguém é ter insónias na voz e engolir o timbre dos búzios em dó menor.

Enquanto esta carta tiver a data de ontem. Não coloques vírgulas na alma. Nem na poesia.

Semeia o sol por dentro para bronzeares a epiderme do coração. Semeia-o. Na fundura das nuvens já descascadas. E nas pedras que se tornaram corpo. E nos versos que escrevi baixinho para não te adormecer. E nos semáforos inapagados iludindo a cidade.

Enquanto as memórias recuarem até ao presente.

Deixa cair o voo das palavras e dá poesia aos que deixam folhas em branco por não conseguirem terminar o sentimento.

Por hoje.

Finito-me.
A Poesia seja convosco!