quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Acabou-se-me a tua ausência. Instante que se prolonga corpo inteiro como um barco-íris à deriva no céu. De agora em diante. Além dos três litros de solidão que guardei na dispensa não sei com que versos completar as noites em que respiro à custa de poemas. Quando estou a sós com as palavras e concretizo futuros para te dispensar em pensamento.
Beija-me ficar aqui sozinho!
Porque um verso basta para emagrecer o grito submerso na tua garganta. Um retrato é suficiente para te aproximar do meu coração nem que seja só por amor.
Mas beija-me ficar!
Prosa não é haver caminhos que surgem para te capturar e desarrumar memórias. Prosa é quando o vento se insurge em nome dos teus passos tombados no chão.
Com que verbo irás apaziguar as pulsações que embatem diariamente contra os pulsos? Que poema gestual irás encenar quando as palavras deixarem de ser só isto? Responde em voz baixa para que os leitores não nos oiçam. As palavras podem estragar a beleza de um poema quando fazemos mau uso do coração.
Véspera por mim!
Chuva-me até à última gota. O bastante para te embebedares com a luz poisada no parapeito desta janela. Mas não te aproximes dos meus pensamentos. A menos que me deixes a tua ausência disponível para quem quiser despejar beijos dentro da minha boca. Algo me diz que já temos idade para riscar na parede versos que faltam para nos arriscarmos a ser poesia. Beija-me ficar. Antes que a vida me peça esclarecimentos acerca do poema onde escondi a tua ausência para te pôr a salvo das minhas ilusões.
Beija-me imediatamente sem aviso prévio!
Dá-me um abraço sem que os meus braços te peçam. Belisca-me o sono e a voz como te ensinei. Busca os retratos que atirámos no lugar da roupa suja como se neles fosse possível lavar o odor do cansaço. Pede-me em amor. O coração pode estragar a beleza de um poema quando fazemos mau uso das palavras. Repito.
Despede-me em ti!
Nenhuma flor chegará às tuas mãos a não ser aquela que inventámos para germinar no entulho dos sonhos.
Desta vez. Garanto-te!
Deixarei o teu vazio à disposição de quem quiser encher as mãos com horas fora do prazo de validade. Não vou mais pendurar minutos em pêndulos preguiçosos ou beijar-te ficar sozinha na sala de espera cruzando palavras usadas. Não vou mais fotografar retalhos como um ser que dói da mente captura memórias por arrumar.
Desta vez. Mesmo sabendo que não se pode ser amado à custa de um poema serei grato à poesia por não nos ter transformado em dois corpos sem uso.

31 comentários:

Sonhadora disse...

Minha querida
Este belo texto deixou-me sem palavras, apenas ouvi em silêncio.

Porque um verso basta para emagrecer o grito submerso na tua garganta. Um retrato é o suficiente para te aproximar do meu coração nem que seja só por amor.

Maravilhoso

Beijinhos
Sonhadora

ღPat.ღ disse...

Apaixonante!

Simplesmente Apaixonante...
Que tua inspiração nunca acabe e que eu possa sempre apreciá-lo com esta alegria, como agora!

Dias de muito Amor para ti Poeta brilhante!
Beijos.

onzepalavras.com disse...

O amor é o mais inesgotável de todos os temas. Não me canso de ler, ler e ler...

Fernanda Cavalcanti e Tamires Moura disse...

nuito fascinante!!!!
ler esse texto foi como sair de um cine...
muiiiiito lindo.

Insana disse...

Apaixonante...

bjs
Insana

Lara Amaral disse...

Textos assim me tiram do sério, mas me devolvem a calma.

Vc escreve prosas poéticas com perfeição, nosso suspirar agradece.

Beijo.

Gislãne disse...

"O coração pode estragar a beleza de um poema quando fazemos mau uso das palavras. Repito."

Apaixonate!

Verdadeiramente Maravilhoso.

Susana disse...

"As palavras podem estragar a beleza de um poema quando fazemos mau uso do coração."
As palavras nem sempre são um bom recurso. ;)
Adorei, como sempre.
SusanaSousa

Anónimo disse...

Texto muito bem construído em volta da substituição de “deixar” por “beijar”. A antagónica é latente em todo o poema. Como se o poeta estivesse indeciso entre beijar e deixar. No entanto o poema carece de coerência porque termina com a resignação ao estado actual de ausência.
O poema Inicia com a afirmação clara de que se acabou ausência de alguém, induzindo o pensamento do leitor na chegada mas não é assim. A primeira parte do poema induz o leitor a ler “acabou-se-me a tua ausência” como a ruptura, no entanto pelo meio do poema pede ao interlocutor que chegue: - Dá-me um abraço sem que os meus braços te peçam Ou - Pede-me em amor, após ter dado a primeira indicação de resignação à ausência: - Mas não te aproximes dos meus pensamentos. A menos que me deixes a tua ausência disponível para quem quiser despejar beijos dentro da minha boca – podes aproximar-te do meu pensamento se me autorizares ao uso do corpo. E o poema começa a desenhar a mútua resignação com o verso: - Nenhuma flor chegará às tuas mãos a não ser aquela que inventámos para germinar no entulho dos sonhos – não há jardim onde colher flor fora da ausência que inventaram.
Dá garantia de acompanhar a solidão do interlocutor e recusa-se a encher vazios (coerente com os versos- não vou mais fotografar retalhos – captura memórias por arrumar – como um ser que dói) mas no fim resigna-se a não dar uso ao corpo e permanecer fiel à ausência: - serei grato à poesia por nos ter transformado em dois corpos sem uso.
Não esquece, não acaba, não busca acabar com a ausência: - Resigna-se e espera a resignação do interlocutor.

Beijo
Sei lá

Anónimo disse...

Soberbo!
Obrigada pelo momento de luz,
CM

Domingos Barroso disse...

Guarda-se na alma
o teor e a posteridade.

Forte abraço,
camarada.

OutrosEncantos disse...

Fabuloso!...

Beijo sem pré aviso :)

Mgomes - Santa Cruz disse...

olá Amigo: Fico eternamente silêncioso ao ler este teu lindissimo poema que coisa tão sublime é simplesmente apaixonante.
Um abraço
Santa Cruz

anita sereno disse...

lindo amei muito
foi uma leitura como uma viagem autentica por momentos me esqueci de como é o amor e você transmitiu no meu coração
parabéns mesmo porque eu amei e amei e li e reli beijos na alma bom fim de semana e continue nossa adorei

Maria Dias disse...

Olá...

Passando para avisar q estou fechando o Avesso do Avesso do Avesso e como vc por um bom tempo fez parte dele gostaria q deixasse suas impressões nesta ultima página.

Um forte abraço

Maria Dias

Juci Barros disse...

Maravilhoso. Nada que falasse poderia acrescentar qualquer coisa; maravilhoso.
Beijos.

Sónia Caires disse...

Simplesmente Maravilhoso!
Apaixonei-me pela beleza deste texto.

Parabéns!
Beijinhos

Margarida Fernandes disse...

Gostei muito deste "lamento".

Parabéns pelas suas palavras.

Adorei...mesmo.

Fê-blue bird disse...

Tenho sempre que ler e reler cada palavra aqui escrita.
Tenho que as saborear, sentir-lhes o cheiro, tomar-lhes o gosto, porque sinto uma vontade enorme de as comer.
Ingenuamente penso, que deglutindo-as posso possuí-las...
Só os verdadeiros poetas escrevem assim.

Beijinhos inspirados

Nádia disse...

Lindas palavras, trabalhadas poeticamente

Dry Neres disse...

Muita saudade de você! Parece corroer os órgãos.. Me adiciona no msn de novo (você sumiu): dry_neres@hotmail

Carmo disse...

Um texto fabuloso. Parabéns!
Bom fim de semana

Pena disse...

Oh, Sublime Amigo de Excelência:
Tudo o que escreve é ouro puro.
Tem um valioso sentir de encantar.
As suas palavras fascinam.
Abraço forte de uma amizade sincera.
Com respeito e admiração constantes.

pena

Bem-Haja, genial amigo.
É uma preciosidade rara.
Bem-Haja, pela visita extraordinária que adorei.
MUITO Obrigado sentido e sincero.
Parabéns pelo fantástico Ser Humano que é.

Gerana Damulakis disse...

Q texto!Muito bom.

Graça disse...

Tão... tu! Magnífico!

Um beijo nosso, querido Eduardo.


[Fechei o meu palco... talvez volte, um dia. Obrigada, por teres estado comigo :)]

Gisela Rosa disse...

lindo texto texto,
linda imagem


não te canses de rabiscar por dentro
é lá que o poema acontece, lá onde a luz ganha forma....

OUTONO disse...

Chuva-me...por favor mais textos...deste teu brotar versus um papel sedento...

Sem plavras...exilo-me....

Um forte abraço!

Insana disse...

Lindo texto, estou encantada.

bjs
Insana

Maria Dias disse...

Que lindo texto!Beija-me ficar aqui sózinho diz o Poeta...Interessante como imagina palavras!Linda tua solidão!

Beijinhos

Maria

maria manuel disse...

gosto sempre de te ler, no modo como sempre encontras maneiras diferentes de versar o amor ou o desamor, e como reinventas o discurso poético.
abraço.

ana margarida cristo disse...

não sei como consegues escrever assim, vezes sem fim, de forma tão original, intensa e apaixonada... fico sem fôlego, pairo nas palavras que apresentas e fico sem saber o que dizer, pk me toca, adora e faz pensar. bj grnd e obgd