terça-feira, 29 de abril de 2014

Exposição de fotografia Paradoxos  


A poesia acontece onde menos se espera, distendendo-se silenciosa e furtivamente pelo mundo. De máquina fotográfica no bolso, e esferográfica na mão, vale a pena percorrermos a cidade com um olhar atento, não vá um verso surpreender-nos num qualquer recanto incógnito, sem que tenhamos um meio de o perpetuar, perdendo-o, para sempre, “à beira do infinito”.

Numa exuberância de materiais, palavras e cores, ressaltam à vista botões, molas, fósforos, pedras, chaves, restos de tecidos, arames, giz, aparas de lápis, troncos, canas, folhas, areia, papéis rasgados, grãos de café, elásticos e, até, chaves inglesas, pregos e parafusos. 

Os cenários variam entre a concretização minuciosa de uma ideia, jogando com cores, texturas e palavras, e a pura improvisação. Sendo que esta última tanto pode ocorrer em casas abandonadas, onde as paredes gritam “como se fossem feitas de silêncios”, como em jardins públicos, nomeadamente o da Gulbenkian e o da Estrela, ou à saída do metro. 

Todavia, esta aparência de delírio abriga momentos de pura lucidez, claramente identificados nas palavras que acompanham algumas das imagens, como nas chaves que fecham “palavras dentro da boca”, sendo imprescindível expulsá-las, nas lâmpadas que precisam urgentemente de ser acesas, não pela corrente, mas pelo pensamento, nos tempos que têm de ser conscientemente fruídos por não serem elásticos, na pedra, aparentemente estável, que implora que a libertem dos finos fios que a fazem prisioneira de um prego, na mala de viagem, pesada e inutilizada, onde se lê “viaja-me” ou até mesmo nas pedras brancas, lembrando túmulos, que se encontram ao lado das flores, contendo a inscrição “eternidade provisória”. 

Escutemos, pois, estas frases contidas nas imagens, ao mesmo tempo que as contemplamos, para que as “palavras que se penduram nas cordas vocais” abruptamente se desatem, e consigamos expressar esse espanto que vem, não só do mundo, como das próprias imagens aqui presentes, deixando-se “ser poema” nesta “Eternidade Provisória”.

Carolina Meireles

2 comentários:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

A poesia acontece o olhar de cada pessoa.
Uma rosa continua apenas rosa de nome para uns, mas para os poetas a mesma rosa encerra segredos e um perfume que lhe dá um toque poético

Bica Curta disse...

Que excelente notícia!
Parabéns!

Obrigada por contribuir à tantos anos para o crescimentos da poesia no meu mundo.

Será com muito prazer que vou ver!