sexta-feira, 7 de maio de 2010

Desaparências
Das noites em que meço a respiração dos pulsos com o lado mais macio dos teus cansaços. Das tardes em que bebo granizo pela boca da chuva e oiço a voz entornar-se gota a gota no chão descalço dos passos andados. É só disto que sei dizer. Mesmo quando quero expoesiar-me dos meus próprios gritos e romper palavras sem mais nem menos. Ir à toa com asas de quem fica. Ir sem caminho e apanhar-me de surpresa antes de ser engolido pelo teu abraço. Descalçar girassóis pétala a pétala até se transformarem em giraluas. Descascar versos gomo a gomo como se fossem sabor de laranja. Ir a sós com beijos insaborosos mostrar que nós também sabemos sorrir. À noitinha. Quando a dor meço com o lado macio dos cansaços.
É disto que sei dizer!
Quando a mansidão se impõe como um ruído sísmico. Só assim consigo escrever. Descascado e sentimentoso. Eis porque me lambuzo com bocadinhos de fome e vou embora de ti para voltar nunca mais ou no penúltimo verso depois do amanhecer. Eis porque apanho balanço para relampagar o céu e faço rascunho antes de pôr sentimento no coração e semeio pétalas onde só existes um pouco só.
Por isso.
Apago. Risco. Volto a dançar com palavras. Arrisco de novo. Assobio cítaras. Enfio sonhos uns atrás dos outros. Desenho um mapa na palma da mão. Desafio-te a usar silêncio para ser poeta ainda que disto não saia nada que sirva para enxugar aquela voz entornada no papel. Desafio-te a pintar os lábios com a cor dos meus beijos. A colocar legendas nos gestos que me queres dizer ou transmentir. A respirar o fôlego de cada frase como se isto fosse de prosa e não um poema.
Desafio-te!
Desafio-te a encontrar de novo um novo caminho que te encontre. Caso contrário. Que farei com a poesia se de tanto te dizer adeus as mãos acabarem aqui? Que farei?! Que farei com este corpo que me resta se não regressares (pelo menos) para te dizer cara a cara que afinal não sou alérgico ao silêncio? Que farei de mim se depois da bonança não sobrar sequer vestígio de alma para te acalmar?
Agora. Pergunta-me como te chamo!
Faz de conta que és metade de ausência e farei de ti meu sono preso por um fio de insónia. Pergunta-me como te chamas. Chamar-te-ei prosa poesíssima! Chão em que me deito. Devagaroso. Entre verdades e fantasiação.
Porque é disto que sei escrever!
É isto que me desaparece da frente quando invento lagrimações só para tornar a solidão mais convincente. É isto que me aparece como se alguma vez tivesse escrito sem sinais de pontuação.
É disto que sei escrever!
Desaparências. Coisas que varrem nos poemas o que neles não deve iludir.

31 comentários:

Delirius disse...

Passei aqui!
Ler-te é um fascínio!
Beijo.

Lara Amaral disse...

Gostei muito.

Abraços.

Graça disse...

"Porque é disto que sei escrever!"... e como sabes! Escrever disto!!! Um estilo único, marca inconfundível desse ser magnífico que se dilui em palavras... neologismos de TI.


O nosso beijo, querido Eduardo, na mais profunda admiração.

Margarida Fernandes disse...

Boa noite,

Deixei-lhe um prémio no meu blog.

Espero que o receba com alegria.

Bom fim-de-semana.

Maria disse...

Não tenho palavras para dizer o quanto gostei do que acabei de ler.
Obrigada.

Justine disse...

De como se pode apresentar uma filosofia de criatividade em jeito de conversa. Luminosa. Inspirada. Inspiradora.
Parabéns, Eduardo, com um beijo

Vieira Calado disse...

Amigo!
O seu texto é bom!
Escrito de dentro, com sensibilidade
e verdade.
Um forte abraço.

Lmatta disse...

gostei do texto
beijos

Fê-blue bird disse...

"Chamar-te-ei prosa poesíssima! "
Que comentário posso escrever que tente pelo menos "igualar" o que avidamente li
Se cada palavra sua é uma descoberta, se cada frase sua um poema.
Adorei como sempre!
Um abraço

Helga disse...

Às vezes gostava de escrever assim... como se parecesse fácil, mesmo não sendo.

Um abraço :)

PS: Deixei um miminho para si lá no meu blogue.

OUTONO disse...

É disto...que quero ler e tu sabes...

Obrigado...amigo. Um abraço!

Nadine Granad disse...

Prosa póetica... está impregnado o lirismo em suas vestes, embora as palavras sejam desnudas!...

Adorei!!!


Abraços carinhosos =)

Gerana Damulakis disse...

Fascinante.

Mar Arável disse...

Que nunca lhe doam

as mãos e a voz

maria manuel disse...

"Desaparências", a varrer o poema de «só para tornar a solidão mais convincente»...
"Desaparências", noites idas de cansaço adormecido, nomes apagados no mapa das mãos, pétalas semeadas de silêncios e sonhos difusos, ausências, as ausências, e as desaparências de que tão bem falam as tuas palavras.

abraço.

ana d. disse...

Gostei deste texto... Leio-o confusa, mas consigo perceber a confusão. :´)

f@ disse...

Mesmo afastada sempre leio mtas vezes os melhores…

Faz de conta que nem li…
Pelo Belo pela criatividade….
E tanto talento …

!nfinito beijinho

Poemas e Cotidiano disse...

Edu, querido!
Comecei a separar as frases que achei de impacto e parei. Parei porque comecei a perceber que estava separando quase o texto inteiro. Ah meu amigo, que coisa mais maravilhosa esse texto. Arrepiante de lindo. Tirei um trecho (sem sua permissao) para coloca-la em meu blog.
Demais...muito lindo.
Beijos carinhosos
Mary

Juliana Carla disse...

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Boa noite

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Anónimo disse...

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Baby disse...

Não tenho palavras, só tu és o dono das palavras, o arquitecto, o artista, o Senhor Absoluto!

Beijos.

Pena disse...

Precioso Amigo Gigante do sentir:
Sabe, maravilha e encanta em tudo o que faz e é.
Escreve de forma perfeita e divinal.
Parabéns, pelo seu génio fabuloso no dissecar as palavras que faz o que quer delas com beleza imensa e enorme.
Abraço amigo bem forte de respeito pelo seu Ser Humano de Excelência que é e significa para todos nós.

pena

Notável, amigo.

Carla Taiane disse...

Adoro teus escrito ... tua intensidade é apaixonante ...

bjos ...

^.^

direitinho disse...

Gostei deste texto feito de palavras avessas que se desfazem em descargas eléctricas e nos sacódem a alma.

Pena disse...

Genial Amigo:
As suas palavras são compostas de ouro puro porque brinca constantemente com elas num fabuloso sentir.
Abraço pelo seu talento num intelecto deslumbrante.
Abraço amigo de sempre.

pena

Notável, precioso amigo.

G... disse...

D
E
S
C
O
N
C
E
R
T
A
N
T
E
Pronto!
Beijo
G...

anita sereno disse...

oi fascinada tu não escreves tu vives cada letra que ai deixas
marcas cada linha com ira com garra emoção escreves com alma da para sentir em cada traço do teu poema maravilhoso beijos obrigada pela visita amei teu blog

Fátima disse...

E sabes escrever lindamente!

Beijos, Fátima

Anónimo disse...

sem palavras... adorei!
J

Maria, Simplesmente disse...

Pois eu disto não sei escrever... e gosto tanto...!
Maria

Anónimo disse...

não sei o que farás mas hoje é o dia em que eu te digo aDeus